quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Paradoxo Existencialista de Um Paranoico

zerochan link

Estou constantemente em paranoia. A paranoia da incerteza realística. Explico: é como se todas as probabilidades ruins e amargas da vida pudessem ser quantificadas por uma parte de minha mente e, assim, lançadas à realidade. Alguns também chamam este estado de pessimismo; mas se for, então é um nível tão denso e profundo de pessimismo (antes nunca vivenciado por mim) que se alguém com esta condição acredita na teoria quântica de energia e vibração e das coisas que podem ser atraídas por meio disso, ela provavelmente estará condenada. Pois viver dessa forma se torna uma dissonância cognitiva indivisível. 

É, de fato, cômico. Afinal, se é tão fácil prever as incertezas cruéis da vida e toda sacanagem que pode acontecer consigo mesmo, por que é extremamente difícil adivinhar o contrário? O problema dessa condição reside justamente no fato de que, por mais lógico que possa parecer, o medo, a paranoia, estão intimamente ligados ao medo irracional, próximos à superstição, à fobia. É quase como um transtorno. E é, na verdade, simples deduzir isso — basta um pouco de matemática. Dou-lhes um exemplo: suponhamos que você tenha um grande estoque de água potável em sua casa. Então, matematicamente, a chance de morrer de sede é extremamente pequena, pois não só estoque está avaliado a durar muito, como pode ser reposto. Nesta circunstância, você deveria pensar: tudo bem, a respeito de água, estou ótimo. Mas não é assim que funciona com a paranoia. Você diz pra si mesmo: e se de repente essa água se esgotar e eu não tiver mais condições de abastecê-la? Então arranjará quinhentos motivos plausíveis, porém improváveis de acontecer, a fim de reforçar o seu "pessimismo". 

Vamos mais a fundo e pensemos o seguinte (aqui é cálculo puro): diremos que o índice de violência em sua cidade é relativamente baixo. As taxas de crimes são medianas e boa parte dos casos são resolvidos. Talvez apenas 0,2% da população dessa cidade seja de caráter criminoso, predispostos a cometerem um ato hediondo. Num lugar de 200 mil pessoas, o número de criminosos, então, seria algo em torno de 400. Bem, ainda são bastante criminosos. Porém, são 400 pessoas ruins no meio de 199.600 pessoas normais. O paranoico se concentra especificamente na exceção, nos 0,2%, mesmo sabendo que por mais improvável que seja, é plausível e, portanto, realista. Até porque são quatrocentas pessoas e não zero. Como se livrar dessa dissonância? O lado bom é explícito e está ali — e antigamente ele até mesmo o enxergava, mas deu azar e vislumbrou a exceção. O que aconteceu com sua visão? Tornou-se mais realista ou mais amargurada? Fora apenas o mundo que lhe mostrou o quão irrealista era sua antiga perspectiva de vida ou é apenas o pobre homem que a está distorcendo e exacerbando o incogitável? O seu corpo hiper-vigilante já não reconhece mais a tranquilidade. E ele está plenamente consciente que o perigo reside em cada espaço onde há vida, pois, naturalmente, todos caminham para o mesmo rumo; embora não consiga, a níveis profundos de consciência, reconstruir a imagem de que o mundo era um pouco mais inofensivo. 

Assim, há a impressão de que a mente caminha ao abismo, acumulando todo o fardo negativo encontrado na estrada, até o escuro. Este medo irracional, porém tolerável, transforma-se em um gás letal. Não é possível que um futuro exista se ele é visto como uma tragédia, porque um acontecimento terrível é simplesmente o presságio do fim. E uma mente de consciência exagerada jamais conseguiria ponderar a possibilidade de adentrar a ignorância cotidiana exatamente por temer irracionalmente. A fobia de Murphy. De pensar naquilo e antever o acontecimento, de não pensar e antever o acontecimento e de pensar no oposto e, mesmo assim, antever o acontecimento. Viram o paradoxo existencialista de um paranoico? De repente, vive-se uma vida amargurada e de potencial absurdamente limitado. Coisas são deixadas de lado. A aceitação da morte e do fim do universo conforta o coração momentaneamente, mas de forma alguma consegue inibir o amargor. Porque você não quer morrer, você não quer deixar de existir, você quer exatamente o oposto! Contudo, a vida não parece combinar com o mundo atual e se torna impossível decidir um futuro bom numa perspectiva lúgubre e curta. Então o paranoico se pegará perguntando o seguinte: mesmo por um segundo, a partir do momento que você vivencia o lado negro da existência, toda ela se tornará negra? Ou isso depende apenas de você e de toda ajuda psicológica e medicamentos que o mundo puder lhe empurrar? Pois ele sabe que o lado iluminado e sublime existe, porém uma vez integrado no canto oposto, ele não sairá dali. Afinal, é muito mais fácil entrar do que sair. Não é o que as leis dizem? É paradoxal, mas ao mesmo tempo crível, como se depois que experimentada a exceção, fazer parte dela cria um novo universo onde as 199.600 pessoas são criminosas e apenas as 400 são normais.

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