domingo, 9 de abril de 2017

Alívio Imediato

zerochan link

Às vezes, eu cedo aos desejos mais primitivos que emergem em minha consciência por puro tédio. Sim, o tédio faz isso com a gente. Ele transforma-nos em criaturas desprezivelmente monstruosas. Deixe eu lhe contar, agora, num momento tedioso, o que me oportuna há muito tempo e que insistentemente venho tentando me livrar; mas não posso, pois é o que eu sou, afinal.




Um pensamento errôneo que temos muitas vezes, principalmente em momentos de deleite e consciência clara é que podemos estar sempre no controle das coisas. Pois quando a nossa mente está leve e calma, tudo realmente parece funcionar do jeito que desejamos. É, de clareza espantosa, que não funciona assim. O controle é uma ilusão. Na primeira faísca de estresse, que cairá sobre uma lenha seca ridiculosamente grande, e tudo se transforma em descontrole total. Esta é uma excelente maneira de colocar isso: estresse e impulsos são estreitamente ligados. Em situações estressantes, costumamos a recorrer por maneiras rápidas e efetivas de nos sentirmos melhores. Afinal, o impulso nos traz alivio imediato — o que nós, seres procrastinadores de genética, buscamos o tempo todo. Seres humanos tem essa propensão: pegue o que é fácil, elimine o que é difícil, obtenha nada, esqueça o tudo. Presente, não futuro! 
A calmaria antecede a tempestade. Ditado popular, tenho que dizer, entretanto ilustra bem. É muito fácil afirmar que estamos no controle quando toda situação já está controlada (e que na maioria das vezes acontece por intermédio da própria causalidade ao invés da ação de um ser humano propriamente dita). Pense bem: você está montado num cavalo, de um amigo. Cavalo bem cuidado, manso e com o costume de ser montado. Você sobe, o monta e começa a cavalgar, adentro em uma atmosfera de sossego absoluto. A primeiro momento: você está no controle. O cavalo centrado, você anda para onde quer, ele respeita e, num colaboração, ninguém se fere. Mas lembre-se: o primeiro passo para que tudo estivesse no controle, sem dúvidas, foi a pacificidade do animal, e não exatamente o quão bem você o monta, pois aí entra a situação B: inesperadamente, o cavalo se assusta, ergue as duas patas da frente para o alto, ficando quase que em uma vertical, e lhe derruba. Viu o que eu quero dizer? Ele se inclinou tanto que você sequer teve como se apoiar e aceitou involuntariamente a decisão de cair. Forte ou não, bom montador ou não, você caiu.

Vem acontecendo algo parecido comigo. Porque por mais que você caia do cavalo, ainda há o depois. O que vem após a queda? Você se levanta (se não tiver se machucado feio), pode decidir entre montar novamente no animal ou seguir a pé. Há, sinceramente, centenas de coisas que podem ser feitas, menos evitar a queda, pois foge de sua capacidade — em um sentido temporal e situacional. Isto se chama: lidar com as consequências. Pensem bem: uma ação inevitável leva a uma consequência. E com ela pode-se lidar. É o que estará acontecendo, em um presente momento, com completa possibilidade de se envolver. Aconteceu com você, afinal, lembra? 

Um impulso acontece do mesmo jeito. A inércia esmaga, o tédio cresce e consigo mesmo você diz: o que posso fazer para quebrar esse espiral de tempo desperdiçado? 

Então surge algo... 

É... vem de dentro, lá das profundezas de sua psique. Surge o impulso. A maneira eficaz de neutralizar a calmaria, jogá-lo ao caos — sem senso nenhum de consequência — e lhe prover alívio imediato. Uma recompensa imediatista. E como você gosta disso! É claro que gosta! Por um sórdido e curto tempo, há a sensação de que a vida o circula. Mas o que vem depois... você, com certeza, despreza no fundo de sua alma. Esqueça o futuro, o senhor diz para si mesmo, o que importa é o agora. Apenas faça. Deixe o barco navegar à deriva. 
Então o barco naufraga. Mas, ei! Espere! Um bote salva-vidas conseguiu te manter acima das águas profundas do mar. Contudo, não importa que você esteja vivo e tenha sobrevivido a tamanha tragédia, o gosto amargo na sua boca diz muito bem o que realmente acontecera. Diz que o barco afundado não naufragara por mero acaso, você o fez. E o fez por total irresponsabilidade. Sabia que aconteceria, mas negou a possibilidade. Deixou que seguisse apenas pelo sentimento de perigo, de estar vivo. De que, ao menos uma vez na vida, você não precisasse decidir por si mesmo, que deixasse algo ou alguém fazer isso. Quis estar sem controle. É uma pena. Trocou uma bela navegação por um mísero bote salva-vidas. Isto é, definitivamente, um estado de negação.

Ah! Mas existem os momentos que lutamos contra esses desejos! Esses abomináveis sentimentos! Com fogo! Explosivos! E todo armamento físico e mental!  

Bom, eu poderia citar novamente o exemplo do cavalo, mas vou além. Vou além citando algo muito comum: os vícios. É isso aí. Os vícios, sim, estão intimamente ligados com os impulsos! Principalmente os que te matam. Então pegue o exemplo de um fumante tentando parar de fumar (veja que introduzi a ação "tentar", pois "tentar" vem naturalmente de "falhar"). E damos uma rápida analisada no que mantém o vício de um fumante: o cigarro. Composição extremamente nociva, gosto ruim, danifica os dentes, as unhas, os pulmões e etc, etc. Então, em raciocínio lógico, o correto seria se afastar o mais rápido possível desta pequena máquina de mortes. Exatamente aí que quero chegar. Boa parte do impulso (senão todo ele) vem do subconsciente, a parte mais ilógica do nosso cérebro. A parte ligada ao prazer e não ao que é lógico e correto. Mutilar-se não é bom, em termos de biologia humana, para seus tecidos e o seu corpo, e mesmo assim há masoquistas! Veja: as substâncias do cigarro liberam ainda mais substâncias ao cérebro que, por consequência, causam o vício. Claro que o processo não ocorre de imediato, mas na repetição. E por mais nocivo que o safadinho seja, a sua mente o interpretará como algo, de certa forma, bom. Adicione tempo e ela não conseguirá viver sem ele! Bom porque te traz o famoso prazer imediato. Quem não gosta de algo prazeroso cujo qual pode acontecer em um curto espaço de tempo? Para que batalhar horas a fio num projeto extremamente complexo se você pode simplesmente injetar um pouco de heroína e viajar numa sensação familiar ao sexo, abandonando qualquer responsabilidade chata da sociedade?

Boa parte da equação dos vícios traz impulso e alivio imediato como resposta. V = I
                                                                                                                      ----
                                                                                                                       AI

Entende o que eu quero dizer? Que eu venho sofrendo do vício de sentir impulsos. Assim como um viciado em sexo. Ultimamente, devido a procrastinação e a esmagadora força invisível da inércia, entro em um ciclo de tédio absolutamente profundo. E junto dele emerge, do buraco sem fundo, o desejo de agir no mesmo instante, inescrupulosamente. Afirmo, com muita certeza, que nenhuma grande mudança pode acontecer de imediato. Mesmo as tragédias. Não há imediatismo em grandes mudanças, pois elas são sutis e gradativas. Nunca ouviu falar na Teoria do Caos? Então o que acontece quando você as força e tenta gerá-las por meio dos impulsos e decisões radicais num prazo tão apertado de tempo que beira o irrealismo?

É obvio... 

Merda acontece.  

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