domingo, 8 de janeiro de 2017

Porque a inércia é o meu TOC

zerochan link


Depois de muito tempo, eu finalmente consegui parar de pensar, porque a inércia é o meu TOC.

Fora somente por um momento, mas nele estava incluído um sentimento singular, palpável e nostálgico, que jazeu empoeirado por anos nas raízes de minha essência e de minha vida cotidiana. Fora o que conhecemos e chamamos de "viver". Neste breve período de deleite, eu apenas preocupei-me em movimentar o meu corpo, observar as paisagens à minha volta e conversar, sem nenhum filtro de introspecção.


Permita que eu comece a história de um ponto favorável. Quero facilitar a compreensão e não jogar fora os significados por mera soberba. Tenho tido uma vida caseira bastante monótona depois que me separei de meu amado. Não éramos casados e nem tínhamos filhos, apenas estávamos juntos, vivendo em sua casa. Um caso de amor, eu diria. Mas como todo bom amor do século XXI, eles não duram muito e, em um rápido flash, tudo tende a guinar para outra direção. Acabamos distorcendo coisas antes vistas de um ponto não só maravilhoso como imutável. Promessas de relacionamento são tão duráveis e críveis quanto a procrastinação. Mas como eu posso dizer? O tempo revela a personalidade de todas as pessoas. Viva um pouco com elas para realmente conhecê-las. Então, numa perspectiva a longo prazo, todos passamos a nos odiar.

Após a separação, eu aluguei um canto barato numa parte mediana da cidade. Apenas um quarto, um banheiro, uma cozinha e uma sala para uma única pessoa. Não senti depressão pós-relacionamento, nem tristeza, nem ressentimento e nem culpa. Apenas continuei a ser eu mesma, com meus pensamentos costumeiros, afinal já estava plenamente acostumada com minha solidão, que não era mera causalidade mas uma decisão de vida. Neste período, entretanto, eu passei a pensar muito sobre existencialismo, buscando respostas próprias para o propósito inexistente dos seres humanos na terra. É claro que minhas conclusões não ganhavam liberdade para fora de meu quarto trancado, e é claro que elas eram desagradáveis.

Planos vieram e se foram, um atrás do outro. A vida tende a ser assim para a maioria das pessoas. Infelizmente, é muito mais fácil se inundar de pensamentos do que agir. Isso vale, incrivelmente, até para os extrovertidos.

Como uma pessoa não exatamente sociável, eu ainda precisava buscar um meio de ganhar dinheiro. Dessa forma, eu trabalhava como freelancer na internet. Com o tempo e muita curiosidade, tornei-me muito boa com programas como Photoshop, After Effects e Premiere. Sejamos francos, com a internet e o filtramento certo, você é capaz de alcançar qualquer tipo de conhecimento. Você pode até mesmo ser um poliglota!

Enfim! Dividia meus trabalhos para a área audiovisual e visual. Criava capas para livros, editava vídeos para eventos e também revisava muito conteúdo literário. Onde houvesse uma oportunidade para ganhar dinheiro, eu adentrava.

Talvez eu tenha passado alguns anos assim. Foi assim que a inércia tornou-se o meu TOC.

Ao passar dos anos, meus pensamentos, que eram exercitados em demasia durante o dia — e não porque eu era uma intelectual ou um gênio, e sim por não haver escolha —, passaram a se congestionar. Passei a me questionar, em muitos momentos, de quantas vezes eu havia pensado e repensado a mesma coisa. Eu voltava para os mesmo pensamentos viciosa e indefinidamente. De pensamentos banais a pensamentos complexos. Era como se uma frase de efeito criada por mim precisasse ser repetida por pelo menos três ou quatros vezes até ter sentido o suficiente. Mas não limitava-se apenas a isso! A evolução ocasionou vícios de palavras únicas. Sim, eu lia algo e, como se não entendesse o que estivesse vendo, repetia mil vezes a mesma palavra! Verbalmente! Mentalmente! Mesmos minhas imagens mentais tendiam a se repetir. Clássico sinal de TOC! Porém, como poderia ser tão repentino? Talvez fosse o stress; contudo, passei a meditar em busca de mais foco para as minhas atividades e tranquilidade física e mental para o meu corpo. E eu realmente obtive! Só que quanto mais eu estava calma e relaxada, mais os pensamentos se repetiam, quanto mais a condição se desenvolvia, mais tempo eu perdia com isso. Fechava os olhos, apoiava minha cabeça sobre as mãos e, num ritual vicioso, pensava e pensava nas mesmas coisas até que elas se alocassem e finalmente sumissem. Era um alívio finito.

Aquilo incomodava-me. Pegue a caneta e o papel e anote esta receita: três litros de solidão, introspecção em abundância, 1 quilograma de inércia, 500ml de sedentarismo, 350 gramas de tédio, 350 gramas de monotonia e, o tempero especial, salpicadas de má alimentação. Sim, parece a receita de uma desgraça completa! Talvez realmente seja! Olhando para estes fatores, a resposta para o meu problema parecia óbvia. Falta de viver. Era eu apenas um ser de puro pensamento e escapismo, cujo corpo já não discernia o plano carnal e sensorial do plano intangível e onírico.

Levantei da cadeira, encarei a tela do computador por um instante e depois carreguei o olhar até o chão da casa. Imundice e restos de alimentos e bebidas decoravam o piso. Caminhei até a porta do quarto e acendi a luz. Toda sujeira pareceu mais suja. Sem nenhum tipo de planejamento ou ideia na mente, apanhei sacolas, luvas, produtos de limpeza cheios (pois alguém esquecera de usá-los), vassoura, pano e rodo e uma pá de lixo. Não mentirei. Em pleno sedentarismo, o seu corpo não funciona como você deseja. Demorei horas e vi o dia se transformar numa noite imponente e de estrelas incomumente brilhantes, mas, e em nenhuma delas, os meus pensamentos se repetiram, porque eu sequer pensei. Dos vislumbres que deram, eram precisos e diretos. Eu sentia falta daquilo!

Casa limpada, restou-me fazer mais uma coisa: respirar a causalidade mais bem elaborada do universo ao nosso conhecimento; o planeta Terra. Pus meu casaco e mergulhei no frio da cidade cinzenta. Vaguei sem rumo pelas ruas de uma avenida movimentada, deixando-me levar pelo ardente desejo de minhas pernas. Passei por pessoas, por animais, por carros, casas, prédios, lojas, por todos os tipos de cenários de uma terra como essa. E, com toda calma, eu apenas observei. Sem pensar, sem julgar, sem formar qualquer tipo de opinião, apenas observei tudo e a todos. Vida em toda parte. No ar que eu respirava, no chão que eu pisava, nas ruas que eu passava. O vento banhava os meus cabelos e as luzes do século XXI coloriam a paisagem.

Minutos passaram, e eu encontrava-me de pé próxima a um banco de uma praça, cercada por vazios enormes de todos os cantos. Examinei-o e, antes de sentar, coloquei a minha mão sobre o banco. Chequei se estava sujo e muito frio. A segunda opção era a correta, mas eu insistia em querer desfrutar de toda viagem, então sentei-me e encarei um arvoredo logo a frente. Possuía um formato engraçado, porém nada que realmente chamasse atenção. Divaguei por um instante e meus pensamentos retornaram. Concentrei-me o máximo que pude e priorizei o vento gélido que colidia com o meu rosto. Dava para senti-lo vividamente, congelando os meus músculos e entorpecendo meus movimentos. Então parei de pensar! Tirei o celular do bolso, deixando toda a tela iluminar minha face. 23:24. Estava tarde. Mais tarde ainda era estar numa praça sozinha às 23:24. Guardei-o no bolso e pus-me a levantar, mas antes disso um homem se aproximou e me interceptou cordialmente.

— Boa noite. Posso sentar aqui? — disse ele.

Tive um sentimento súbito de paranoia e hesitei antes de concordar.

— P-pode sim. Mas eu já tô de saída. Desculpa.

Ele soltou uma leve risada e respondeu:

— Por que não senta aí mais um pouco e desfruta esse ar? O clima tá ótimo! Se preocupa não, só quero conversar um pouco. Coisas que faltam entre as pessoas hoje em dia.

Sentei-me. Ele continuou:

— As pessoas acham que sair numa hora dessas é perigoso. Perigoso é ficar enfiado dentro de casa com um monte de preocupações na cabeça. Isso sim é perigoso. Perigoso também é ficar sentado num sofá o dia inteiro assistindo televisão ou ficar o tempo todo, o tempo todo!, no celular.

— Então cê não se preocupa em ser assaltado ou morto numa hora hora dessas? Sair até que é valido sim, mas geralmente é bom de dia, moço.

Ele se virou para mim e sorriu, assim, eu pude ver claramente sua feição. Sua aparência era agradável e muito simpática. Parecia que nenhum tipo de mal ou preocupação existiam naquele olhar.

Me preocupo nada! Ficar se preocupando em evitar a morte só acelera o processo. Só é engraçado ouvir isso de alguém que tá, o quê?, umas onze horas da noite, aqui, conversando com um estranho. E, ainda por cima, é mulher! Mas, olha, sou negro. Boa parte das pessoas já se assustam só de verem a minha aparência.

— Bom, eu não me preocupo. Pra mim todo mundo é parte da mesma composição orgânica. Todos iguais.

— E é?

— Claro, ué.

— Hum... Pra mim, mesmo que todo mundo seja feito da mesma composição orgânica, cada pessoa tem sua sutileza, suas nuances. Isso meio que faz de cada ser vivo único. Acredito até que esse seja nosso propósito na terra. Acredito que foi pra isso que Deus criou a gente. Para que tivéssemos consciência, buscássemos um significado para ela e acabássemos concluindo que o único significado fosse ela mesmo.

— Então você acredita em Deus?

— Claro. Você não?

— Não, eu meio que parei de acreditar. Meus pais me ensinaram a crer na Divindade desde cedo, mas, com o tempo, quanto mais eu pensava e mais buscava uma razão lógica pra minha vida, menos eu passei a acreditar nele. Acho que sou meio niilista.

— Pelos menos você não parece desacreditar a fé dos outros só por que não crê nas mesmas coisas.

— Longe de mim.

Ele levantou a cabeça e encarou o céu. Vi o seu pulmão inchar de ar e depois suas narinas expirarem lentamente.

— Eu conheço essas teorias da vida... — disse ele, me dando um susto pela repentinidade — mas, sei lá, acho que a nossa lógica não cai muito bem nisso tudo não.

— Quer dizer o que com isso?

— Olha pra gente aqui, interagindo. Questionando a natureza de tudo. Nem sabemos o nome de um do outro, nem onde cada um mora, nem com o que trabalha, nem se temos filhos ou não. Não sabemos de nada da vida do outro. Só tamo aqui: sentados, de noite e num lugar vazio, questionando a natureza de tudo.

Fixei a imagem da lua nos meus olhos.

— Numa escala cósmica, somos minúsculos — continuou o homem. — E ainda sim teimamos em querer saber o início de tudo. Por que nós, seres humanos normais, não aproveitamos apenas o momento de agora? Só o presente. Por que se preocupar com coisas além de nós enquanto a nossa vida passa sem atenção alguma?

— É... a gente tem uma coisa, mas estamos sempre pensando na coisa seguinte.

— Isso! Inatenção total. Não vivemos o presente. Não vivemos o agora. O agora onde eu respiro esse ar puro, converso com ucê e sinto um frio do caramba. Onde a gente SENTE.

— Eu tenho pensado nisso mesmo... Muitas vezes...

— E aí?

A ansiedade acelerou meus batimentos cardíacos e minhas mãos gelaram tanto quanto o clima da noite.

— Acho que devo parar de pensar tanto e me entregar.

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