quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Episódio Se Repete


Tudo começa quando eu acordo. O episódio da sitcom monótona que não possui sacos de risadas.
O relógio tende a despertar às 9 horas da manhã, em ponto; pelo menos quando a bateria consegue se manter por toda noite, já que ela é a danada de uma viciada. Toda vez que eu desperto, estou serenamente calmo. Lentamente abro minhas pálpebras e encaro o teto encardido. Permaneço nesta meditação por pelo menos cinco minutos antes de criar coragem para me levantar por completo. Não penso em nada. Nem em minha presente situação na vida e nem no que eu precisarei fazer em seguida.


Quando a finalizo, com um pouco de esforço, jogo a coberta de lado e encosto os meus pés no tapete ao lado da cama, tateando com as solas em busca de meus chinelos. O dia começa.
Na cozinha, é de total necessidade tomar um belo de um café preto, sem leite, mas bastante açucarado. Enquanto ponho a água para ferver, penso no que preciso realizar em seguida. E vejo, então, que não tenho muitas coisas para me empenhar. Estou desempregado há cinco meses e, obviamente, passo o dia pensando em como arranjar outro emprego. O meu chefe, um baita de um safado, roubara da empresa em que eu trabalhava e, ainda por cima, conseguira colocar a culpa em mim. Pôs o meu nome em todos os relatórios que ele gerara para si mesmo após solicitar materiais com preços exorbitantes de que a empresa não tinha necessidade em adquirir. Fraude e superfaturamento. 
Ameaçaram me processar, e assim o fizeram, pois o buraco financeiro era de mais de cinquenta mil reais. Graças a isso, estou há dois meses indo com frequência ao tribunal, com um advogado meia tigela que o governo arranjara para mim, fazendo o possível para provar minha inocência. Inocência, acredito eu, que pagará cinquenta mil reais mais tarde. Devido ao roubo, depois que deixei o trabalho, não me pagaram as contas. E isso me faz pensar: como um desempregado igual a mim pode continuar pagando o aluguel deste apartamento em que vive?
O dono da propriedade dera apenas mais um mês para me retirar junto com os meus móveis. Já se passavam três meses sem que eu o pagasse, e sua paciência não se estenderia para mais do que isso. As ligações eram constantes; às vezes, mais do que duas por dia.
Enfim, após preparar o café e me deliciar dele em uma xícara de solteirão que ganhei de uma amiga tempos atrás, vou para a janela do apartamento e me posiciono no canto. Afio o meu olhar e encaro a rua por um longo tempo. Vejo as pessoas andando de um lado para o outro, ocupadas com os seus afazares diários. Eventualmente observo alguns carros de classe alta percorrerem velozmente pelo bairro e deixarem os seu rastros sonoros por alguns segundos. E por aí vai. 
Quando a fumaça do café já se extinguira e parara de embaçar o vidro, percebo que a xícara está vazia. Assim como eu. Assim como eu estou aqui, sozinho, neste lugar, abandonado pelo mundo. Sem pais, sem filhos, sem parentes, sem ao menos alguém para amar. Aconchegando-me no abraço da solidão e, claro, da música. Qualquer porcaria que eu goste, provavelmente estará, no dia seguinte, em minha lista de reprodução e passará a tocar às 10:20 da manhã, sem atraso. De rock ao clássico, o importante é ter melódia agradável.
Em uma situação de aperto, os seus familiares o abandonam.
Após isso, o dia passa relativamente rápido. Até a tarde: onde estagna em uma câmera lenta torturante.
Sento-me no computador e fico horas mandando currículos. E, para ser franco, mando-os há meses e nunca obtive resposta de nenhuma empresa. Após o envio incessante, minha cabeça sobrecarrega. Levanto-me e vou para o sofá duro como pedra. Deito nele, com um dos braços sobre a testa, e tento pensar em uma saída. Mas ela parece tão distante! Assim, o desânimo me atinge forte, minha alegria perde a sua única faísca, e a luz no fim do túnel me lembra dois faróis de um trem vindo me atropelar.
Então, eu abro um sorriso. É discreto, mas está ali. Me lembro de uma pessoa que nunca realmente me deu atenção, porém que me disse uma vez a frase mais clichê relacionadas aos sentimentos: A felicidade começa por dentro. E para alguém como eu, ouvir isso é uma ofensa. Entretanto, ela estava certa. E é uma afirmação poderosamente sábia. Perdi o contato dela desde então, mas guardo esta citação com veemência.
Há bastante tempo o meu almoço tem sido apenas macarrão instantâneo.
Tento não enlouquecer preso a um apartamento vinte quatro horas por dia, desempregado, prestes a ser expulso do lugar e abandonado por Deus.
Antigamente, eu fora uma pessoa bastante religiosa e comparecia sempre nas missas da igreja, mas na progressão de minha vida, da montanha ao abismo, fez-me perder, lenta e implacavelmente, a fé. Passei a acreditar que, talvez, Deus pudesse até existir, mas que se esquecera de mim. Escrevera em seu caderninho da vida, em todas as linhas tortas possíveis: Este homem viverá bem a princípio, depois, a sua vida será escrita pelo vazio, e sua natureza o destruirá.
Tenho uma tevê boa para quem mora sozinho, embora eu não a use muito, com medo da conta de energia elétrica cortar todas as esperanças de poder pagar mais algum mês de aluguel e arrastar minha moradia um pouco mais.
De tarde, nada é real. Tudo me parece estranhamente lento. Não há respostas no email, o café de manhã já esfriara, junto com a minha motivação, o clima seco e quente me agoniza, a xícara de solteirão permanece suja sobre a pia, as pessoas deixam de andar nas ruas, tudo parece absolutamente quieto e melancólico. Preso no que não fazer, tenho a tentação de ligar a tevê, mas o telefone me interrompe abruptamente. Atendo e ouço a reclamação costumeira de meu senhorio. Já arranjou o dinheiro? Você só tem mais um mês! Só mais um mês e, então, eu lhe tirarei daí! Nem que eu precise usar a força!
Mais ouço do que falo, e penso: Como poderia um velho desses me tirar à força daqui? É claro, a polícia!
Desligo o telefone, que em breve será cortado, e encaro o controle remoto com desânimo. Eu perdera a vontade de assistir algo. Levanto-me e ando a esmo pelo apartamento. Passo duas ou três vezes pelo calendário. Está marcado com caneta vermelha o dia 15 de Abril de 2014. Dia de minha última audiência, onde terei o veredito final, daqui duas semanas. Onde o juiz declarará: Você deve cinquenta mil reais à empresa! Então o martelo fará sua deixa.
Apanho o meu MP4 em cima da bancada da cozinha e reproduzo The End, da banda The Doors. Deito-me, novamente, no sofá, ponho o meu braço sobre a testa e sorrio. Lembro da citação clichê. A felicidade começa por dentro.
Varro o olhar pelo cenário e solto um arroto. Acho estranho, pois não ouço nenhuma risada como as séries de comédia.
O meu celular vibra e, assim, minha esperança também. Desbloqueio-o e ansiosamente danço o meu dedo pela tela, até o email. Mas nada. Vejo no topo e lá está! Uma notificação! Diz: É hora de tomar banho. Obedientemente, como um cão treinado, eu atendo e vou tomar uma ducha. Já imaginando, mais tarde, que irei navegar inutilmente pela internet a noite toda, depois analisar obsessivamente a caixa de entrada do meu gmail, talvez mandar um ou dois currículos, desligar o computador, permanecer quase duas horas em frente à janela, lamentando e, finalmente, adormecer e sonhar com algo bom. A felicidade começa por dentro.
Enquanto a água sai do chuveiro em linhas verticais e escorre por todo meu corpo, eu gargalho. Uma súbita boa sensação brota do meu peito e invade cada célula de meu corpo. Tão irresistivelmente boa que não consigo controlar minha risada. O meu corpo cora e por meses minha expressão finalmente amolece. Sinto todo o meu rosto se contrair e a faísca de esperança momentaneamente se tornar uma explosão. Algo tão único que deveria ser sentido todos os dias.
E uma única questão me vem à consciência:
Ironicamente, mesmo uma vida infeliz pode ser regada à felicidade. Ela não é algo único. É algo mutável. A felicidade, a que começa por dentro, é moldada às nossas perspectivas, assim como os demônios de um são os anjos de outro. Se as desgraças já não lhe causam mais infortúnios, elas são a sua felicidade.
16 de Abril de 2014.
Estou cansado de correr em círculos. Sempre que acordo é como se eu estivesse preso em um episódio de uma sitcom. O roteiro se repete. As coisas se repetem como uma similaridade apavorante. Nada muda, nada acontece. É sempre as mesmas coisas. É monótono e repetitivo. Me sinto vazio. Preso em um roteiro que não posso mudar. Eu acordo, me levanto e vou ao computador. Às vezes eu me lembro de tomar café da manhã. O dia segue. Eu desligo o computador, me deito e durmo. O episódio se repete.
As paisagens, os cenários, os objetos, as pessoas, nem isso consegue mudar por si só. Como eu disse, as coisas tendem a se repetir. Tudo que eu mais queria era uma vida normal, mas você não consegue correr para trás sem tropeçar. Uma vida normal foi varrida para o passado. E, agora, sou condenado pelas correntes excêntricas das escolhas inconsequentes que fiz. Eu me arrependo disso, pois não há pior sentimento do que acordar de manhã e ver que tudo será igual. Que nada vai mudar e que nada vai acontecer.
Ainda mais sabendo que, atualmente, devo cinquenta mil reais à Sacaneio-Os-Meus-Funcionários Corporation.

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