quinta-feira, 31 de março de 2016

Sombra e Ladra - Parte VI


Parte VI

O meu plano era suicídio.

"Estou ouvindo", disse Daniel, mantendo as suas frases curtas.

"Precisamos entrar no meu apartamento e recuperar as chaves da brasília."

A sua expressão severa descontraiu por um momento e um sutil sorriso criou vida. O nítido sorriso de incredulidade banhado generosamente no sarcasmo. Ele olhou para as janelas de meu apartamento, que refletiam o brilho das lâmpadas, depois para a entrada, que possuía um sistema de iluminação com sensor de movimentos e, por último, para os dois postes acessos acerca de três metros da porta, na qual era usada para o acesso no prédio. A curvatura acima de sua extensões formavam o exemplo perfeito do desenho da Forca.


"Estou ouvindo", repetiu, após se levantar e me fitar. Provavelmente esperava que eu dissesse: É claro que é uma piada! Acha que eu seria louca assim?

Mas é claro que eu era.

Acompanhei o seu raciocínio e também olhei para as janelas de meu apartamento, caminhando um pouco para trás afim de tomar visão. O Daniel era alto. Os meus um metro e setenta centímetros não eram nada comparados aos um e noventa dele.

A minha visão escorregou e foi parar no andar debaixo. Estava escuro. Subiu e mirou no acima do meu. Estava escuro. Então para o lado. Estava, mais uma vez, escuro. Horrível pressentimento.

"Pensa que é improvável porque está de cabeça quente", afirmei amargamente, ainda olhando para as trevas atrás das janelas de meus vizinhos.

"Não é improvável, Eli. É impossível. Há diferenças", retorquiu, estendendo a sua fala pela primeira vez desde o Subsolo.

"Veja então, Daniel." Apontei para a escuridão da entrada de meu edifício. "Está escuro, não é? É por isso que você não vê. Além daqueles dois postes, há uma lâmpada com sensor de movimento pregada no topo da entrada. Acendendo-a, poderá ver que, lá mesmo, existe a caixa de energia do prédio. Com a quantidade necessária de interruptores para colocar um sorriso neste seu rosto!"

Ele cruzou os braços e, novamente, a sua feição se asseverou.

"Pode fazer o mesmo que fez naquele poste", continuei. "Lance algumas pedras e garanta nosso acesso até a caixa."

"Não tem pedras por aqui, Eli. E não há como quebrar os cadeados da caixa."

"Eu sei, eu sei! Droga!"

Ele possuía razão.

"Pelo menos eu estou tentando pensar em algo aqui!"

Eu estaria lhe enganando se dissesse que abaixo dos postes de luz ou por trás de minhas janelas só houvesse luz. Havia, novamente, sombra. Sombras que divagavam lentamente pelos quartos de meu apartamento, pelas calçadas aos arredores dos edifícios; por todo lugar. E as suas formas eram aterradoramente mais distorcidas e sombrias. Os animais sombreais sofreram mutações físicas. Muito me lembravam, ironicamente, os desenhos que eu fazia quando criança. Desenhos de tormento, muitas vezes repreendidos por meus familiares. Desenhos cujos traços representavam desordem e languidez.

As sombras pareciam seres antropomórficos, de membros desproporcionais. Aquilo apavorava tanto a mim quanto ao Daniel, que evitava manter o olhar para o meu apartamento ou qualquer outro lugar onde estivessem. E este pavor entorpecia os nossos sentidos. Nos deixava com medo de arriscar.

"Não tem jeito", afirmou com tanta intensidade que latejou o meu ferimento.

"Você não tem nenhuma ferramenta no impala?", perguntei, desesperada.

Mas ele mantéu o silêncio e isso fora resposta o suficiente.

De repente, escutei um sino soar. O som nostálgico não vinha de onde estávamos — do estacionamento, de algum bairro ou de, muito menos, da cidade. Apenas eu o escutei. Vinha de dentro de minha cabeça e ressoava de maneira angustiosa por minhas memórias. Em seguida seguiu o ruído que, muitas crianças, aglomeradas e despreocupadas com as suas vidas, causavam ao andar e conversar pela escola de volta às suas salas. O dia se clareou e, por fim, amanheceu com um glorioso sol de verão.

Eu estava parada em frente à porta da minha próxima sala, onde teríamos aula de artes. Rodeada por pessoas que não eram meus amigos.

Uma silhueta adulta surgiu velozmente por dentro dos alunos e me puxou pelo braço. Arrastou a criança até a sala da diretoria em somente quatro palavras: Venha cá, sua malcriada. Levaram-me para escutar o diretor, pomposo e arrogante, vangloriar-se do ensino exemplar de sua escola e me repreender de forma perversa pelos desenhos monstruosos que eu fizera — e, em seguida, quase faria — na aula de artes.

"Se tornar a fazê-los novamente, teremos que tomar medidas mais drásticas, mocinha", continuou ele, entrelaçando os dedos e estendendo as pernas sobre a mesa de pinho. "Senão, os seus pais a terão que levar para um hospital psiquiátrico e, aí, apodrecerá lá, atormentada pelos monstros que você mesma criou."

Aquilo me causou pânico. Sabe o efeito que palavras assim possuem no psicológico de uma garota de nove anos? Passei semanas com trauma daquele ser que ameaçou me colocar — mesmo de forma gozadora — em um lugar para loucos. Na maior parte do tempo, eu me escondia de meus pais e rasgava e partia qualquer papel ou lápis que pudesse encontrar. Fugia das aulas de artes em direção ao banheiro feminino e lá permanecia trancada até ouvir o sino tocar. Eu não entendia as coisas muito bem.

Mas havia algo que tranquilizava o tormento da alma de uma criança: o seu professor preferido; de voz trovosa, expressão severa mas gentil, alto como os prédios de uma metrópole (crianças, lembram? Tudo é alto). Ensinava português como ninguém. Todas nós, alunas da escola — e até mesmo não-alunas —, éramos apaixonadas por ele. Se eu pudesse definir a sua aparência com mais precisão, usando de um ator como exemplo, diria que ele me lembrava muito o protagonista de Donnie Darko. Só que, claro, bem mais velho (nas casa dos 35) e diferente em outros aspectos. Como da voz juvenil de Gyllenhaal para o oposto, o que nos divertia muito.

Quando o sino tocara, a sala de português surgiu em minha vista, substituindo a entrada de meu prédio. Tudo pareceu tão real. Até mesmo a súbita troca de horário.

A porta estava fechada, e eu precisava abri-la. Ver ele mais uma vez e, então, acalmar o tormento da alma de uma adulta.

Caminhei lenta e solenemente em direção a ela.

 "Eli? O que diabos você está fazendo?", indagou uma voz à distância, mais como um murmúrio. Tão distante que nem mesmo tive a preocupação ou esforço de reconhecê-la. Passou em meus ouvidos como o canto distante de um pássaro.

Continuei a caminhar e chegar cada vez mais próximo da sala. Mais alguns metros, e eu tocaria a maçaneta da porta. Teria o descanso que tanto quis.

O coro de alunos novamente apareceu, junto com a sensação de que alguma silhueta adulta viria deles e me pararia. Então, uma luz foi crescendo e ficando cada vez mais forte no meu aproximar da sala.

O dia virou noite em um piscar de olhos, e a porta me revelou a imagem de uma criatura de sombras. O cão pulou em cima de mim com fúria e quase enfiou os dentes em minha carne, mas uma silhueta veio berrando e me puxou pelo braço antes de eu ter sido mordida no pescoço. Arrastou-me para longe com tanta força e velocidade que eu imaginei ser puxada por um trem. Páramos, finalmente, perto de minha brasília vermelha.

"Jesus, Eli! Mas o que foi isso?!" berrou Daniel, recuperando o fôlego. "Enlouqueceu!?"

Fiquei paralisada. Paralisada por quase ter cometido uma loucura que poria fim à minha vida.

"Responde!"

"Ah, meu Deus! Me desculpe, Daniel!", lamuriei alto, pondo as mãos na cabeça. "Me descul..."

Um barulho de larga escala, como uma alavanca antiga de geradores sendo puxada para baixo, tomou toda cidade. E as luzes foram apagando uma por uma. Poste por poste, casa por casa. Apartamento por apartamento. Uma completa, densa e incompreensível escuridão nos abraçou. Não era mais possível ver absolutamente nada.

"Só faltava essa!", berrou Daniel para o alto.

"Não!", gritei de volta, como se estivéssemos a centenas de metros longe do outro. "É perfeito!"

"O quê?"

"É, é perfeito! Não há sombra quando não há luz, não é?", citei. "Essa é a hora de pegarmos a chave e cair fora daqui!"

"É... você tem razão! Mas e se a energia voltar? Na verdade", ele pausou "Não dá para ver nada! Como poderemos chegar até lá?"

"Assim como um cego pode andar sozinho no mundo! Temos que correr o risco! E precisamos ser rápidos! A bengala terá de ser nossas mãos e nossos outros sentidos! Olha, você me puxou de volta à lata-velha em linha reta, não foi? Sei disso porque ela está, exatamente, de frente à entrada. Então andaremos retos. Lá, tatearemos pela parede até encontrar a porta. Ela está trancada, porque só abre sem chave por dentro, e quando fecha, você sabe...! Mas é fraca, portanto você conseguirá arrombá-la com o pé! Subiremos as escadas e, pelos meus cálculos, passaremos por oito mini corredores, o que dá quatro andares. O meu apartamento é o primeiro após as escadas. Ele já está aberto, o que facilita muito!"

"Feito!", combinou Daniel.

Com perfeição, executamos todos os passos que eu citei. Marchamos como zumbis sem rumo para a entrada e, lá, após eu ter batido o meu rosto na parede, tateemos por ela até encontrar a porta. O Daniel se preparou bem antes de chutar a porta, pois se errasse a direção do chute, a sua perna iria de encontro com o concreto, e isso provavelmente a quebraria. Sentiu-a mais uma vez e chutou-a com extremo desdém. A porta se escancarou no primeiro golpe. Atravessamos por ela e começamos a subir as escadas, com cuidado, apoiando-se nas barras de segurança, mas o mais rápido que podíamos. Quando contamos os oitos mini corredores, fui direto à minha porta e gritei para o Daniel seguir a minha voz. O hábito me tornara uma noctivaga com visão noturna.

Busquei a maçaneta e, então, abri-a. Adentramos a uma escuridão ainda mais densa e estacamos na divisa da cozinha para a sala.

"E agora, Eli?" indagou o Daniel quase como um sussurro. Era possível sentir a tensão em sua respiração.

"Aqui temos que ter mais cuidado. Muitos móveis. E uma maldita mesa de mármore que só serve para lhe atingir na região da cintura." Suspirei, também tensa. " Vamos para os quartos. Acho que deixei as chaves em alguma gaveta do guarda-roupa ou de minha escrivaninha."

Ouvi o murmúrio positivo do Daniel.

"Minhas mãos doem de tanto bater nas coisas", protestou.

"Bom... cuidado com a mesa de mármore."

Segui em frente e passei por ela sem ter sido atingida, rumo ao meu quarto.

Ouvi um barulho e, em seguida, um exclamo.

"Ai!" A fala tentou se conter. "Maldita mesa! Acertou-me no canto da perna! Porra, dói!

Tentei segurar o riso, mas ele eventualmente saiu.

"Por que ainda tem isso aqui, Eli?"

"Porque foram os meus pais que me deram isso."

"Devia pelo menos mudar essa mesa de lugar."

E ele tinha razão. Mas o meu apartamento era apertado, então eu não tinha onde a colocar.

"Vou procurar as chaves no meu quarto. Você pode começar pelo quartinho que eu uso de escritório. Só existem elas aqui, então, se achar algo no formato e que tilinta como, são elas.

"Escritório...", disse para si mesmo. "Chique."

Bati em pelo menos quase todas as coisas no caminho até conseguir encontrar a porta do quarto.

"Você me disse uma vez que este apartamento foi presente de seus pais, não foi?"

Sim, foi. Depois dele provocar um spam massivo no meu email, querendo saber o motivo de uma garota, na casa dos vintes anos, com um emprego mediano, já ter um apartamento próprio junto com um carro próprio — que convenhamos, não é lá um carro próprio —, eu cedi a resposta.

Os meus pais são pessoas esquisitas; mas amáveis. Sempre me repreenderam na infância — seja por meus desenhos horrendos, meus comportamentos anti-sociais ou pela minha compulsão com o diferente. O que, sinceramente, eu achava extremamente intrigante.

Embora me censurassem e tentassem moldar a minha personalidade de vez em quando (como todo pai e mãe), sempre deram tudo para mim: uma educação exemplar, rodeada de presentes físicos e emocionais, no qual o maior era baseado no amor. Apesar dos problemas que as crises causavam, a minha infância fora boa. Aprendi o que foi preciso para me manter sozinha e garantir, assim, minha sobrevivência.

Graças ao meu pai, eu cresci fascinada pelo ato da investigação. Afinal, ele já fora um grande detetive particular. Pseudônimo: Falcão.

Passava horas a fio me contando de suas proezas, nas quais envolvia muitas vezes traições, suspeitas dos pais com os seus filhos fazendo o que não deviam, desaparecimentos e, até mesmo, crimes hediondos como assassinato. Minha mãe sabia que eu gostava disso, então, mesmo com minha pouca idade, permitia ouvir as macabras histórias de meu pai. Na verdade, por muitas vezes, ela até nos acompanhava, trazendo xícaras de chá.

O dinheiro que ele ganhava era o bastante para sustentar nossa família e transmitir a todos segurança financeira, mas nem isto fez mamãe largar o seu emprego de pintora. Talvez seja daí que eu herdei o hábito de desenhar monstros.

Vivíamos alegremente neste apartamento desde meus quatorze anos, mas, quando ele fez o seu sexagésimo aniversário, decidiu que era hora de se aposentar e pôr um fim àquela vida imprevisível, indo viver em um lugar mais calmo. Minha mãe, é claro, com os seus cinquenta e sete anos, o acompanhou, deixando a sua paixão pela pintura somente como hobby. Mais paz para as minhas pinturas, ela disse.

Eu também iria; entretanto, o emprego que eu acabara de conseguir não me permitiu. Deixaram este lugar para mim, a brasilia vermelha, na qual era usada nas investigações de papai, e um grande boa sorte. Eles agora vivem tranquilamente em um sítio à quilômetros da cidade, onde mesmo os satélites de comunicação não alcançam. Precisam dirigir de carro por dez quilômetros estrada de terra adentro até uma cabine eletrônica, próxima de um bar, para poderem ligar.

Eu me pergunto se eles estão bem.

"Nunca tive pais tão bons como os seus", disse Daniel, interrompendo o silêncio de minha reflexão. "Até parece que eles me deixariam um apartamento bonito como este!"

"Pelo menos eles moram perto de você", respondi.

"Do que adianta se nunca estão presentes?", retorquiu, e isso me fez calar.

Passamos pelo menos vinte minutos às cegas revirando qualquer gaveta que nossas mãos encontrassem. Foi quando o Daniel gritou, do meu escritório.

"Eli! Encontrei!"

"Sério?", exclamei alegremente. "Ótimo, vamos sair daqui!"

O mesmo som de larga escala, parecido com o descer de uma alavanca antiga, repercutiu a cidade. Os postes, um a um, começaram a tremeluzirem. Anunciariam eles a nossa sentença?

"As cortinas, Daniel! As cortinas! Fecha elas!"

Corri para a janela de meu quarto e, velozmente, puxei as cortinas, quase as rasgando.

Um poste se acendeu; as cortinas já haviam sido fechadas no quarto que o Daniel estava.

Outro poste se acendeu; agora fora na direção de meu quarto.

Senti o Daniel passar como um touro atrás de mim e correr para as cortinas da sala. Depois, o som delas deslizando pelo varal que as prendia no alto.

Foi quando a denúncia mais grave pairou em minha mente.

"Daniel, nós desligamos as luzes do apartamento?"

O terceiro poste se acendeu e lançou, pela fresta da cortina, uma fraca sombra na camiseta do Daniel. Ele paralisou, e eu também.

Mas, incrivelmente, nada aconteceu. Era como se aquela sombra não tivesse forças para causar dano nenhum. Havia algo de errado com ela? Com certeza. Pois, sim, ela tentava se metamorfosear; porém, tudo não passava de um chiclete que não desgruda do sapato.

"As luzes, Daniel!", berrei. E ele correu direto para os interruptores. Sem nem mesmo saber onde estavam. "Não! Não vai nos interruptores! Vai na caixa de energia do apartamento! Na cozinha! Na cozinha!"

As luzes do quarto que era usado como escritório subitamente se acenderam, mas antes que algo viesse das sombras, o Daniel conseguiu desligar a energia do apartamento.

"Deus do céu!", ele suspirou alto.

Sentei no chão, com o coração alarmado.

"E agora?", perguntei.

"Como assim?"

"A energia voltou. O que quer dizer que as lâmpadas com sensor de movimento estão funcionando novamente. Estamos presos. Não dá para sair."

"Discordo de você, Eli."

"O quê?"

"Você tem lençóis aí, não tem?"

"Sim, por quê?

"Oras... Vamos fazer uma trouxa e sair pelas janelas."

"Quer dar uma de Rapunzel agora, é?"

"Tem ideia melhor?"

"Não", respondi amargamente. "Vamos nessa."

Recolhemos todos os lençóis da casa e fizemos uma trouxa enorme, graças as habilidades de nó do Daniel e aos meus pais, por terem deixado muitos do que usavam.

"Espero que isso seja firme", falei.

"É."

Fomos até a janela da sala (a maior) e arregaçamos as cortinas. Felizmente, as fracas sombras que eram lançadas em nós, não nos faziam mal. Porém...

"O que... é... aquilo?", interrogou Daniel, quase sem fala, olhando para a criatura colossal do lado de fora.  

Era difícil descrever aquilo.

Uma criatura humanoide de sombras com, no mínimo, quinze metros de altura. Braços longos, de extensão do ombro ao pé, que seguiam um formato de taco de baseball. Como os outros, não possuía face; não sabíamos se estávamos olhando para a frente ou para trás dele. A sua cabeça era careca, e o seu corpo... bem, parecia trajado com um vestido, pois não era possível discernir sua silhueta. Lembranças de meus desenhos vieram à mente.

Começou a berrar como um dinossauro, e o estrondo apavorava qualquer ser. Porém, o que mais apavorava não era o fato dele ter uma aparência intimidante, uma altura colossal ou de estar acompanhado por mais dois destes seres, e, sim, que ele engolia as sombras menores. Engolia, não, devorava; e cresciam com isso! Se mesmo elas eram massacradas de tal forma, como seria com os humanos?

"Eu não quero fazer isso", afirmei para o meu amigo e me surpreendi com sua resposta.

"Nem eu."

Olhávamos, juntos, os monstros cortarem a visão do horizonte da cidade, mas foi ele que nos salvou. Um som muito forte veio de sua direção, quase ensurdecedor, e atraiu os monstros para longe. Assemelhava-se com o ruído produzido por uma uma carreta equipada com alto falantes enormes. Tremia todo o prédio. Parou logo, mas afastou os seres.

"O que foi isso?", perguntei, abismada.

"Eu não sei! Mas essa é a hora", disse ele, abrindo a janela e jogando a trouxa para o lado de fora. A mesa de mármore era pesada, então aguentaria bem o nosso peso. Ele subiu no peitoril, firmou-se e se posicionou para descer. "Eu vou primeiro."

Assenti  com a cabeça e me preparei para descer também. Encarei os três andares abaixo de mim e, tremendo, subi no peitoril da janela. Segurei os lençóis com toda a minha força possível. É agora, Eli, pensei, rezando para mim mesma.

Quando fui iniciar a minha descida, o telefone tocou.

"O quê?", me espantei. "Você não tinha desligado a energia, Daniel?" indaguei, olhando para baixo e o encarando.

"Sim, eu desliguei a alavancazinha das lâmpadas. Era o que estava escrito no papel colado lá dentro."

"E deixou a energia dos aparelhos ligada? Eles também causam sombra, caramba!"

"Então se apresse e desça logo!"

Depois de alguma tentativas, o telefone parou de tocar e passou para a secretária eletrônica.

"Eli, querida?", inquiriu uma voz melancolicamente masculina com estática. Estava rouca e, pelos soluços, parecia estar chorando. "O que está acontecendo? O que são essas criaturas? Elas... elas mataram a Amanda. A sua... mãe está morta. Está aqui... do meu lado...", a voz pausou. Os soluços tomaram conta. "Morta... Você está bem, amor? O mundo... está louco. Eu não sei o que está acontecendo. Estávamos indo ligar para você..., mas esses monstros nos atacaram e mataram... a sua... Queríamos dizer que estamos com saudade e que amamos você." A estática aumentou e pôde ser ouvido um uivo de um lobo. "Não! Não! Se afasta de mim! Fique longe! Fique looooonge!"

A ligação continuou, captando o rasgo da carne que o animal de sombras causava em meu pai. Os gritos, o rosnar do cão...

"Eli? O que foi isso? O que aconteceu?", perguntou meu amigo, desesperado.

Aquilo... aquilo me... Eu paralisei. Um torpor tomou conta do meu corpo e minha cabeça começou a girar. As minhas mãos formigaram e eu lentamente fui perdendo as forças, deslizando pela trouxa.

Quando as forças acabaram, despenquei do quarto andar até o solo, junto com o meu amigo.

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