quinta-feira, 24 de março de 2016

Sombra e Ladra - Parte V


Parte V

Antes de prosseguir minha confissão, eu preciso voltar. Disponho agora, pelo abraço da escuridão, de mais tempo. E contar o capítulo do Subsolo como realmente aconteceu é de fundamental importância.

Como eu disse anteriormente, é complicado ver na escuridão. Tudo o que acontecera, em sua maioria, fora distorcida por minha visão. Vi o que eu queria ver e nada mais. Acontece que, sim, Daniel e eu fomos levados até o subsolo de um prédio abandonado, e, sim, as quatros pessoas desconhecidas realmente nos confrontaram. Mas elas seguem rígidas regras, e uma dessas regras exige quase-total pacificidade; na medida do possível, é claro. Convenhamos que nem todas as situações podem ser pacíficas.


A adolescente que fora espancada brutalmente em minhas memórias está viva. E para falar a verdade, sem muitos ferimentos. O Daniel realmente ergueu aquele pé de cabra várias vezes e o lançou na direção da cabeça dela, mas, ele acertou apenas uma vez; e, essa vez, passara de raspão pela bochecha direita da garota. Os outros dois ataques bateram e ricochetearam no chão. Porém, como eu não poderia ter ouvido o rebater do som naquele local? Fácil. Os gritos dela abafaram.

Depois disso, o Daniel fora acertado pelo taser e desmaiara. A sua vítima sobrevivera apenas com algumas lesões no pescoço e no rosto (marcas dos grandes dedos de meu amigo), um corte não muito profundo na bochecha, um leve machucado na região do ombro (por causa da queda) e uma perna quebrada. Por causa da queda.

Há algo que eu ainda tento entender. O motivo do Daniel ter surtado.

Primeiro pensei que poderia ser por causa de nossa segurança ter sido ameaçada. Do potencial risco às nossas vidas que aquelas quatros pessoas poderiam oferecer. Eu não sei exatamente quem é você, ou se existe um você que está lendo esta confissão, mas confesse, você surtaria se estivesse em um estacionamento de um prédio abandonado, envolto por uma escuridão assustadora, por quatro pessoas de roupas pretas e máscaras de esqui e ser lançado ao tormento do barulho de um pé de cabra que ruidosamente ecoava pelo lugar.

Entretanto, eu estava enganada. Não fora apenas isso. Claro, contribuiu, mas o verdadeiro motivo era, justamente, o carro. Um veículo de tanta importância para ele que o faria matar sem pestanejar. Mataria até mesmo eu, se preciso.

Ele não suportara ver aquela pessoa abrir o porta-malas de seu carro com um pé de cabra. Arranharia a pintura, amassaria a lataria e partiria a trava de segurança. Infligiria danos ao seu impala, e, isso, ele não poderia tolerar.

Quando, naquela vez, ele paralisara dentro do carro, após o pássaro negro ter dado uma de Al'Quaeda no vidro do motorista, não fora causado pelo medo da morte, da criatura de sombras ou de estarmos prestes a sermos esmagados por uma aranha que eu mesmo criara; não, era simplesmente por causa de seu impala. Primeiro o tanque de gasolina, segundo a janela, terceiro o capô e, depois, quase todo o carro? O que mais faltaria? É uma pena que o acesso de raiva tardara e, infelizmente, fora despejado em uma adolescente.

Naquele momento, eu corri com grande perturbação em meus passos. Tendo a minha mente me enganado ou não, o choque de ver o Daniel com aquela ira me fez questionar as consequências que ela geraria.

Pus-me a revirar as chaves e quase as deixá-la cair, a enfiar no trinco da porta e girá-lo. Sem sucesso. A porta já estava aberta. Percebi isso, felizmente, cedo. Ao abri-la, não encontrei a terceira pessoa lá dentro. Eu apenas queria isso. Lembra-se que havia, aos berros, uma garota sendo espancada? É obvio que alguém não ficaria dentro de uma van comendo um hambúrguer enquanto algo assim acontecia. Eu estava entrando no veículo, e ela saindo. Não encontrei ninguém. Mas eu sabia que, mesmo se eu roubasse aquela van e a ligasse, eu não possuía controle algum para abrir a porta do estacionamento e fugir. Se é que existe algum controle para isso. Estávamos em um lugar abandonado. Talvez, nem se quiséssemos poderíamos ligar a energia daquele lugar. Eu iria o quê? Andar em círculos até a gasolina acabar?

Dancei sozinha para trás e deixei a gravidade me levar. Depois, apenas esperei o sujeito de voz profunda se aproximar e me dar um descanso. Talvez fosse eterno, talvez durasse menos de uma hora, porém um descanso é sempre bem-vindo.

O que você enxerga das pessoas na escuridão quando os demônios vêm?

Acordei, dessa vez, em outro estacionamento. Nesse, pelo menos, era possível enxergar. Estávamos de volta ao lugar onde tudo se iniciou. Daniel, eu e as quatros pessoas.

Olhei para o alto e silenciosamente observei que todos os postes haviam sido desligados de uma maneira bem rude. À maneira Daniel. Éramos iluminados apenas pela lua, que jazia grande e imponente no céu, nos abastecendo com o mínimo de luz. O que era bom. O que, sendo franca, era muito melhor do que o breu de um subsolo.

Examinei o meu arredor e lá a vi: a minha lata-velha. A brasília vermelha que ganhei de presente do meu pai há mais tempo do que uma memória normal costuma se lembrar. Me desculpe os Mamonas, mas o vermelho era mais a minha cara. Embora esta maravilha não tivesse sequer um rádio ou sistema de som. E nem mais janela do lado do motorista também.

À distância, ainda se via o meu apartamento com todas as luzes acessas.

"Não os pedirei perdão", iniciou o homem de voz grossa para o Daniel e eu. "O que fizeram é inadmissível em nosso grupo. E as nossas regras exigem que os mandemos embora."

Permanecemos em silêncio.

"Oferecíamos um bom lugar para vocês", continuou. "Um lugar que estava longe dessas criaturas. Um lugar que possuía mantimentos em demasia. Um lugar pacífico no qual irá sobreviver muito bem e por muito tempo. Mas agora vocês perderam esse direito. Não os mataremos, embora seja o que nós queremos, mas serão largados aqui e terão que sobreviver por conta própria."

Virei a minha cabeça para o lado do Daniel e o vi fechar a expressão.

"Soltaremos vocês dessas amarras, portanto não tentem nada de estúpido", afirmou a mulher que segurara Sil nos braços, encarando-nos com veemência; e com uma faca em mãos. "Senão os matamos aqui e agora."

Acenei positivamente com a cabeça e, então, sorri.

"Sil, não é?", indaguei, olhando em direção à adolescente. Sua silhueta poderia ser facilmente discernida depois que você tivesse dado uma boa olhada em seu rosto.

"Não responda", ordenou a mulher à sua direita.

"Sim, por quê?", respondeu ela, colocando uma das mãos no bolso.

"Posso ver o seu rosto mais uma vez?"

Ela recuou.

"Eu preciso saber se o meu amigo aqui não fez nenhuma besteira com ele. Não gosto de ver um rosto como o seu ser... você sabe... Danificado."

Sil caminhou com dificuldades para perto de mim, tendo, inteiramente, ajuda do ombro da mulher e de uma muleta improvisada. Continuou em pé, observando-me sentada no chão. Os dois outros homens do grupo se aproximaram de mim e me levantaram, pondo o meu campo visão no mesmo que o dela.

"O que você viu dele naquele momento?", perguntou-me, com uma de suas mãos pressionando o meu braço e a outra se equilibrando na mulher.

"Não muito, mas o suficiente", respondi, de voz pouco audível por causa do aperto.

"Então essa talvez seja a última vez que você o verá. E quero, também, que o seu amigo se lembre muito bem dele, porque se voltarmos a nos ver, vocês precisarão saber quem eu sou e como eu pareço. Saberão, assim, que poderão morrer a qualquer momento."

Ela tirou a máscara de esqui e nos encarou por, pelo menos, dois minutos. Embora eu ache que tenha sido ainda mais tempo; na direção do Daniel.

O seu rosto estava como eu havia dito: com algumas lesões no pescoço, na testa, e um corte na bochecha direita. A sua descrição física era semelhante ao que eu havia visto no subsolo, com exceção, é claro, de seu cabelo, que não era liso e, sim, ondulado.

Ela colocou a máscara de volta e cambeteou para perto da van preta. Os outros dois a acompanharam.

A mulher se aproximou de nós com a sua faca em mãos.

"Fiquem longe de nosso grupo, entenderam?", estabeleceu ela, nos defrontando.

Retribuímos-a da mesma maneira.

"Eu preciso de uma resposta."

Nós dois novamente acenamos positivamente com a cabeça.

"Me dê as suas mãos", disse ela para mim. Levei-as em sua direção e a sua faca passou entre os meus punhos, rompendo a corda. "Agora você." O seu tom pesou, enquanto o olhava.

Ela se agachou e puxou os pés do Daniel. Em sua curta queda, a sua expressão se fechou ainda mais.

A lâmina passou pela corda e o soltou.

"Se tentar me chutar, eu corto as suas bolas fora. Me dê as suas mãos."

Obedientemente ele as deu, e logo elas encontraram a liberdade.

A mulher caminhou de volta até os seus companheiros, relanceando a sua retaguarda por várias vezes. Os dois homens entraram pela frente da van e as duas pelo compartimento central, deslizando a porta para o lado. Antes dela ser fechada, ouvi — e vi nos movimentos de seu lábio — a Sil dizer num murmúrio:

"Boa sorte para você."

A porta se fechou suavemente e, depois, tudo o que deu para ouvir era o arranco do motor.

Estávamos sozinhos de novo.

Olhei para cima e contemplei o céu. Sereno, calmo, mas se tornando claro. Aquilo era um denúncia. Uma denúncia grave.

"Que horas são, Daniel?", perguntei atônita. "Que horas são, caramba!?" Mas ele não respondeu. Estava sério, de linguagem corporal ofensiva. "Por Deus, Daniel!"

Fui até ele e puxei o seu braço. O meu amigo parecia um boneco. Demorei para entender o que aquele relógio de ponteiro me mostrava. Eu não sabia lê-lo muito bem.

"São 3:45", respondeu ele, curto e severo.

"Puta merda. Dá para me dizer o que diabos foi aquilo com aquelas pessoas? Caramba, Daniel! Você quase matou uma criança!"

Mas ele não respondeu. Pelo contrário, recuou ainda mais e manteve um olhar fixo na escuridão atrás de mim.

Observei no rumo em que ele olhava e vi, quase totalmente imerso em trevas, o seu impala. Estava com o porta-malas forçado e arrombado.

"Merda. É por isso que não quer responder? Olha! Não... Não! Ah...", suspirei. "Estamos ferrados."

"Será?", indagou Daniel sarcasticamente, enquanto apoiava o braço na perna. Não arriscou se levantar desde que fomos deixados.

"É claro que sim! A não ser que você tenha um plano. Você tem?"

"Não."

Circulei, ansiosa, por uma breve área do estacionamento. As minhas mãos tremiam.

"O que eu faço, o que eu faço, o que eu faço?", disse para ninguém em específico. Pausei e entrei em um estado profundo de denúncias. "Ah! Sim! É isso. Obrigada, pai... Obrigada." Virei-me na direção do Daniel e exclamei: "Acabei de pensar em algo!"

"Um plano?", perguntou brevemente sem nem mesmo olhar para mim.

"Sim!"

"Qual?" Tive a sua atenção pela primeira vez.

Apontei para a minha brasília vermelha.

"Vamos conseguir as chaves daquela lata-velha!"

Continua...

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