domingo, 20 de março de 2016

Sombra e Ladra - Parte IV


Parte IV

"Preste atenção, tudo bem?", disse uma voz masculina de tom grave. "Nós já vimos os seus rostos, mas vocês não verão os nossos. É a regra para qualquer novato aqui. As suas feridas foram tratadas e, agora, ambos estão em segurança, mas isso é tudo que podemos oferecer."

"O quê?", respondi meio grogue. "O que está acontecendo?"

A voz se virou para mim, criou forma, e a sua silhueta me deu um tapa no lado bom do rosto.

"Apenas escute", ordenou o homem. "As sombras não podem nos atacar aqui. É uma fortaleza escura. Salvamos vocês daquele estacionamento e, agora, precisam nos recompensar. As regras daqui exigem isso."


O lugar onde estávamos cheirava à sujeira, ratos e mofo. A princípio, eu achava que estava vendada, mas não era exatamente isso. Demorou um tempo para que os meus olhos se acostumassem com a escuridão, mas, quando aconteceu, pude ver que o local na verdade se tratava de um edifício abandonado. Permanecíamos localizados, mais especificamente, no subsolo do prédio. Era obvio. Estávamos encostados diante de uma coluna, circundados por várias outras, e à distância era possível enxergar, quase como um borrão, uma rampa de estacionamento. Olhei mais atentamente e vi a van preta estacionada a um pouco mais de cinco metros de nós.

"Vocês são espertos", interpelou, agora, uma voz feminina. "Conseguiram sobreviver muito bem naquele lugar. Um lugar que consideramos suicídio se aventurar, afinal, é uma área grande e cheia de postes de luz." Ela riu. "Mas não iam durar muito."

Haviam quatro pessoas à nossa volta. Daniel ainda estava no chão, desmaiado, com uma atadura no braço. Suspeitei que, da mesma forma, pudessem ter feito algo em mim, portanto, levei as minhas duas mãos até o meu rosto — porque assim como o meu amigo nós estávamos amarrados —, e me surpreendi quando, também, toquei em uma bandagem que o cobria quase por completo.

"Está esterilizado", disse ela."Foi um machucado feio, em? E foi difícil tratá-lo no escuro, mas agora o sangue está estancado. Costuramos o seu machucado do jeito que deu."

"Devo agradecer?", perguntei.

"E por que não agradeceria? Também tratamos o seu amigo e, olha, até agora não fizemos mal algum para vocês dois."

Era difícil confiar em quatros pessoas com roupas pretas e máscaras de esqui.

"Por que estamos, novamente, em um estacionamento?"

"Porque, obviamente, este é o melhor lugar para se esconder", respondeu uma terceira silhueta que, antes, apenas observava. "Só tem escuridão aqui. Não há sombra quando não há luz."

"E o meu celular?", gritei. "Se ele tocar num lugar desses, todos nós estaremos..."

"Relaxa!", a voz feminina me interrompeu. "Não somos burros, ok? Desligamos todos os celulares."

"Não há mesmo nenhuma fonte de luz aqui neste lugar?"

Mas eles não responderam, apenas permaneceram em silêncio por um breve período.

"Ei," A mulher tocou o braço da última e quarta pessoa "Vá até a van e pegue aquilo."

"Aquilo?", indaguei para todos, mas, novamente, fui ignorada.

A quarta pessoa caminhou calmamente até a van, e todos nós a acompanhamos com os olhares. Ela parou defronte ao porta-malas e remexeu o bolso da calça com as mãos enluvadas. Retirou a chave e, então, abriu. Não dava para enxergar muito, apenas a vi adentrar o braço no compartimento e, por alguns segundos, buscar alguma coisa. Quando ela puxou o objeto, e ele colidiu com a lataria do veículo, o tilintar metálico ressoou por todo estacionamento. O meu coração disparou.

"Você vai ver." A voz feminina riu.

A quarta pessoa fechou o porta-malas, ergueu o pé de cabra até o ombro e tornou a voltar. Lenta e ofensivamente.

Arrastei-me para trás, da maneira que pude, e girei o meu corpo, pressionando o laço de cordas de minhas mãos na coluna.

"Não se preocupe, isso é de praxe das nossas regras", a voz de tom grave voltou a falar, observando-me tentar romper as cordas sem fazer nada. Ouvi ele dar um passo para a frente e o barulho de suas chaves colidirem umas às outras na cintura.

"Você precisa de muito mais fricção para cortar elas. E, provavelmente, irá cortar, também, os seus pulsos no processo." Então a terceira pessoa riu suavemente e se calou.

Ouvi o pé de cabra bater no solo e prosseguir ruidosamente. O som era próximo, tão próximo que jurei estar escutando-o do lado de meu ouvido. O meu corpo ficou frio. Tão frio como a latinha de refrigerante que eu encontrara no carro do Daniel.

Subitamente, os passos cessaram. Empurrei o meu pé para trás e o senti tocar em um tecido. Jeans. Calças Jeans. Virei o meu rosto tão lentamente quanto o impala sem gasolina de meu amigo e fui surpreendida quando a quarta pessoa encarava-me a menos de cinco centímetros do rosto.

"Bú!", caçoou ela.

Lancei-me para trás aos berros e a chutei na região da canela, mas ela desviou. Desviou com tanta velocidade que a sua máscara de esqui sacou do rosto e caiu no chão. Mesmo na escuridão, o movimento me revelou uma face. O rosto simples e ingênuo de uma adolescente. Loira, de cabelos lisos penteado em tranças. Branca como luz. Era bela, mas não aparentava ter mais de dezessete anos. Muito me lembrava eu na infância.

"Você é engraçada." Ela riu envergonhadamente, pegou a máscara de esqui e, rapidamente, a colocou de volta no rosto, depois passou por mim. Olhei para trás espantada e a vi se aproximar de um outro veículo. É, claro. Era o impala do Daniel.

"Sabe, aquele impala é muito bonito, mas é a porcaria de uma lata-velha. Nem com a chave do carro eu consegui abrir o porta-malas. Então, pelo bem das regras, usaremos um pé de cabra para abri-lo. Sinto muito pelo seu carro, amigo, mas é preciso", disse a voz da mulher que eu ainda não conhecia, olhando na direção do Daniel. Ou pelo menos para a direção do lugar onde ele estava. O rosto dela se alarmou e criou uma expressão de horror. Vasculhei o meu amigo por todos os cantos, mas como todos os outros três, não o encontrei. "Ele escapou! Ele escapou!", gritou ela!

A adolescente já estava pressionando a ferramenta no carro.

Os gritos a alertaram e ela se virou, assustada, para trás. Um vulto correu em sua direção e saltou, agarrando-a com brutalidade e fazendo os dois rolarem longe pelo concreto do subsolo.

"Não!", gritei, mas o Daniel não deu a mínima.

Ele a pressionou no pescoço com o laço de cordas, produzindo um engasgo que poderia ser ouvido de longe, mas ela conseguiu girar para o lado e transpor do ataque. A garota se levantou desesperadamente e, no mesmo ritmo, voltou para o chão quando ele laçou os seus pés com a corda. O baque surdo repercutiu por menos de um segundo, e o grito dela por três. O Daniel se levantou, caminhou até o seu impala e rasgou as amarras num vidro pontiagudo que se pendurava no veículo desde o ataque do pássaro negro. Retornou até ela, que tentava rastejar sem força, ajoelhou sobre o seu corpo e a socou duas vezes, arrancando o pé de cabra de suas mãos. Espremendo o seu rosto com a mão, ele empurrou a cabeça dela para trás, enquanto executava uma manobra com a ferramenta em mão e a acertou no rosto com a parte sem pontas. O rosto foi jogado para o lado ao derramar do sangue que vazava do corte recentemente criado. Ele ergueu o pé de cabra para o alto e, novamente, lançou-o em direção do seu rosto.

"Deus do céu, Daniel! Para com isso!"

O pé de cabra novamente subiu para o alto e fez o seu caminho no crânio da garota. Arregalei os meus olhos e não acreditei no que vira. Como eu disse, era complicado ver na escuridão. Eu não sabia se aquilo era apenas a ferramenta cessando ou os pedaços da cabeça dela voando.

O sujeito de voz grossa se agitou, puxou, velozmente, algo da cintura e acertou o Daniel de longe, que caiu imediatamente no chão. O relampear do taser marcou dois lados do estacionamento com luz e, por esses dois segundos, as sombras partiram os cabos de eletricidade do equipamento em pedaços.

"Sil!", gritou a voz feminina, enquanto corria aos prantos até a adolescente e a agarrava no chão — Santo Deus! Santo Deus!

Logo, finalmente, consegui romper as cordas das mãos, depois de ralar os meus pulsos no processo. Aproveitando-me do momento, arranquei as chaves da cintura da pessoa que disparara o taser e corri até a van preta. Surpresa, ela se virou puramente pelo reflexo e correu atrás de mim, mas eu havia me distanciado o bastante. Me atrapalhei com as chaves na mão e quase as deixei cair. Escolhi a que parecesse correta e a enfiei no trinco, porém ela não girou. Puxei a porta mesmo assim e ela se abriu. Ótimo, já estava destrancada.

Me preparei para subir enquanto o sujeito se aproximava, mas parei assim que olhei o interior do veículo e vi a terceira pessoa lá dentro, comendo um hambúrguer. Ela me encarou assustada e, com o pé, empurrou-me para fora. Dancei brevemente tentado me equilibrar e exclamei:

"Não foi minha culpa! Não foi!"

Depois disso, ouvi a voz grave se aproximar e tudo ficar mais escuro do que já estava.

Continua...

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