quinta-feira, 17 de março de 2016

Sombra e Ladra - Parte III


Parte III

Coloquei minha cabeça para fora da janela e olhei para trás. Vi o rastro de gasolina se estender a pouco mais de dez metros. Acontecera quando ele chegou.

"Como isso foi acontecer?", exclamei atônita. "Não! Como você deixou isso acontecer?"

"Eu não sei! Eu não sei! Simplesmente aconteceu!", respondeu ele, se enrolando nas próprias palavras.

"Não existe isso de simplesmente aconteceu! Se você andar pela rua e tropeçar, teve um motivo para isso acontecer! Ou você não prestou atenção ou se descuidou!"

O carro havia estacado em baixo de um poste de luz. Projetava, ao seu lado, uma enorme sombra distorcida. Se você a focasse bem, veria ela vagarosa e silenciosamente mudar; tomar a forma de uma aranha.


Os outros animais avançavam em um passo implacável. Logo se aproximariam o bastante de nós. Daniel, ciente da situação, se precipitou e fechou as janelas.

"Pensa, pensa!", insisti.

"Acho... acho que foi na hora que liguei os faróis."

"Ótimo."

"E o que isso nos ajuda, mesmo, Eli?", perguntou, retorcendo o rosto e se virando para mim. Encarei-o indignada. Indignada por não ter uma resposta.

"Eu não sei!", disparei, sentindo os meus ferimentos latejarem. Boa parte de minha visão era constituída de negror e sangue. "Estou desesperada!" Então pausei e, desesperadamente, comecei a observar o interior do carro. "Não! Existe um jeito!", apontei, olhando para ele.

Atrás dele, escondido parcialmente por seu reflexo, um pássaro negro, de olhos ainda mais negros que refletiam o absoluto nada, voava e manifestava ondas de sombras pelo céu como o sol libera o seu hidrogênio no espaço. Em um pisque, a ave rompeu o ar, sibilando tão rápido quanto um jato, e atingiu o vidro do motorista, onde o Daniel estava. Ele sentiu o impacto, mas não se virou para trás. O vidro se fragmentou e permaneceu sustentado apenas por uma breve quantidade de sorte. Ficamos paralisados. Assustados e sem a completa reação.

Outro pássaro sobrevoou por perto e conseguimos ouvir o seu exclamo de tom grave:

"Pegue a ladra!"

Então, com incrível rapidez, lançou-se nos cacos e, de vez, quebrou todo o vidro. Lembro-me de ter gritado! Os estilhaços lançaram-se no Daniel e ele me protegeu como um escudo. O pássaro atravessou entre nós e chocou-se com o vidro do passageiro. Crack! Ouvimos os seus ossos quebrando. Ele deslizou para baixo do meu banco e deixou um rastro de sangue na fissura redonda que fizera na janela.

A parte traseira do carro solavancou. Em seguida, vários passos puderam ser ouvidos na lataria do impala, subindo da parte traseira até o capô. Mais pássaros cantaram pelos céus negros e anunciaram repetidamente:

"Pegue a ladra! Pegue a ladra! Pegue a ladra! Pegue a ladra! Pegue a ladra! Pegue a ladra!"

"Qual jeito?", indagou Daniel repentinamente, me sobressaltando.  "Responde! Qual jeito?"

"A jaqueta!" Apontei. "Me dá a sua jaqueta!"

Sem hesitar ele a retirou e a jogou até mim.

"Para que quer a jaqueta?"

"A bateria do seu carro está cheia?", perguntei.

"O quê? Sim... Sim! Está!"

"Então me ajuda aqui." Levei a jaqueta até o painel do aparelho de som do carro e, com ela, tampei o visor. "Segura esta duas pontas aqui."

As aves sombreais pousaram-se com cólera sobre o capô e lhe marcou com vários amassados. Um dos animais que também subira no carro, o famoso coiote-sangrento desta região, saltou pela janela do motorista e pulou em cima do Daniel.

Os dois começaram, de forma edaz, a lutar pelo carro, revirando tudo! O coiote-sangrento de sombras arregaçou as presas, apoiou-se na porta do carro e lançou-se no braço de meu amigo, que exclamou de dor e o socou no focinho. O animal recuou e, então o soltou. Com muita força, dado ao físico atlético que tinha, Daniel pôs a sua mão na mandíbula do coiote e começou a socá-lo seguidamente. O animal se rebateu de dor no súplico de seus gritos e empurrou Daniel sobre a alavanca de luz do carro. Os faróis de súbito acenderam no máximo de suas opções, dando, então, vida para a aranha que antes crescia lentamente na sombra do carro.

"Puta merda, Eli!", exclamou. "Liga isso logo!"

A aranha abraçou o veículo e começou a esmagá-lo.

"Deus! Espero que o sistema de som deste carro seja alto" sussurrei para mim mesmo, berrando em minha consciência. Coloquei a jaqueta de volta no lugar, girei o botão de volume para o máximo sob ela e apertei o botão de ligar. A coincidência fez o resto. Come And Get Your Love começara a tocar novamente, fazendo os pássaros e aranha recuarem. O som fora tão alto que dissipou o coiote-sangrento-de-sombras lá mesmo.

"Eli! Funcionou!", festejou. "Aguenta um pouco mais."

Ele se esticou até o porta-luvas, deixando nítido a profunda marca de mordida no braço direito, o abriu e retirou um rolo de fita adesiva. Deslizou a unha por toda superfície, demorando para encontrar a ponta. Quando encontrou, arrancou vários pedaços com os dentes e, com fita suficiente para segurar o para-choque de um carro, pregou a jaqueta no visor do aparelho de som.

Olhei-o com certa admiração e, ao mesmo tempo, frustração. Observei, também, ele abrir a porta do carro e sair.

"O que você está fazendo?", vociferei, mas ele só respondeu depois, quando já estava de pé no estacionamento.

"Agora é o toque final", respondeu, buscando uma pedra no chão e arremessando em direção ao poste de luz sobre nós. A primeira pedra foi de encontro com o outro lado do estacionamento e nada atingiu, mas a segunda foi certeira e despedaçou a lâmpada, jogando-nos ao completo escuro novamente. Salvos. Por hora.

Minhas forças já haviam se esgotado. O machucado não dava tréguas e sem um tratamento adequado acabaria por me matar. Encostei o meu corpo na porta do impala e, finalmente, pude sentir o cheiro de fast-food. Toda a minha visão, constituída, agora, de cinquenta porcento, começava a embaçar.

Vi o Daniel se aproximando da janela do motorista.

"Agora precisamos cuidar disso", disse, apontando na direção de meu rosto. "Antes que amanheça."

Ele encarou a escuridão do estacionamento e viu doutro lado, à distância, os animais sombreais. Suspirou preocupado.

Olhei para o porta-copos do carro e vi uma latinha de refrigerante aberta. Também havia rastros de hambúrguer, fritas e guardanapos no veículo. Pus minha mão na lata e senti que ainda estava fria. Sequer pensei direito e comecei a bebé-la. E olhem, isso foi maravilhoso! O abrigo do inferno. A dor ainda pulsava infernal e incessantemente, mas a temperatura fria acalmava tudo.

Dei mais uma golada, encarei o Daniel e perguntei:

"E agora?"

"E agora nós dançamos de acordo com a música."

"É uma ótima música para dançar", respondi, sorrindo.

Uma buzinada bradou das sombras. A van preta emergiu da escuridão lentamente e parou do nosso lado. Veio buzinando e isso afugentou os animais ainda mais. Anunciava, descaradamente, sua chegada à distância. Era escura, não só pela cor da lataria, ou pelo preto dos vidros, ou pelo preto das rodas, havia algo a mais. Havia algo bom nela: não possuía luz, apenas escuridão.

Antes de eu apagar, vi a porta do veículo abrir e uma silhueta nocautear o Daniel.

Continua...

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