terça-feira, 15 de março de 2016

Sombra e Ladra - Parte II


Parte II

Tudo aconteceu antes mesmo de eu piscar. A mão que saíra da tela de meu celular, em questão de milésimos de segundos, metamorfoseou para uma forma animalesca, como as garras de um leão, e, em mais da metade de garras que uma pata tem, fez-me três grandes cortes diagonais no rosto. A dor dilacerante me fez berrar extremamente alto. Pude ouvir o grito repercutir por todas as ruas da cidade. A dor foi tão desproporcional que, meu reflexo, aguçado pela adrenalina que o susto liberara, apertou o botão do meu celular com força o suficiente para fazê-lo desligar e, por sorte, me poupar.


Os animais sombreais haviam parado em volta de meu carro, não arriscavam um passo além da completa escuridão que ele abrigava.

Eu sentia os machucados arderem como carvão esbraseante. Eu via o sangue respingar em meu vestido como uma torneira mal fechada.

Com o meu corpo hesitante e trêmulo, lentamente levei a minha mão até o meu rosto e o apalpei com extrema sutileza. Pude sentir a minha mão encharcar com o sangue e a minha carne se pendurar apenas por uma tira. Quando trouxe minha mão de volta à minha visão, novamente exclamei alto! E percebi as sombras recuarem. Só poderia ser aquilo! O som! O barulho! Ruídos! Sons elevados o afastavam! Esforcei-me e apanhei, novamente, o meu celular. Eu precisava experimentar algo.

Puxei o meu fone de ouvido do porta-luvas do carro e o encaixei no meu aparelho telefônico. Virei o celular para baixo e o pressionei no banco do passageiro, então o liguei. Sem sombra. Ótimo.

Apertei o botão de iniciar/pausar do meu fone e o celular começou a tocar Come And Get Your Love do Redbone. Era baixo, mal dava para ouvir com os fones longe. Retirei-o e a música pausou. Suspirei de dor; o sangue que caíra de meu corte já havia pingado para dentro do alto falante do celular. Apertei um botão do lado de meu aparelho, que servia especialmente para destravar as músicas e, depois, o de aumentar o volume. O carro funcionou como um amplificador. Havia dado certo. Eu queria comemorar, mas a dor sobrepujava de uma maneira voraz.

Olhei ao redor e, então, vi os malditos animais se afastarem ainda mais. Cerca de dez metros para longe do carro.

Quando a tela do celular finalmente apagou, recolhi-o, ainda tocando a música no modo repetição — pois se eu gosto de uma música, gosto de ouvi-la até enjoar — e saí da minha lata-velha. Olhei ao redor com toda visão que me restara e esbocei um sorriso. Era bom ver aquelas criaturas com tanto medo que se recolhiam como ratoszinhos maltratados.

A maldita garra havia me cegado um olho. Hoje, estou parecendo uma versão feminina do Governador. Só que menos cruel.

De qualquer maneira, a minha ideia era simples: eu usaria o meu celular como escudo e atravessaria o mar de sombras até o meu apartamento. Ergueria-o como um cajado de mago. Isso os manteria afastados. Quando, de volta, eu conseguisse ligar o carro, iria até o lugar onde trabalho. Lá há uma sala especial com muita iluminação que usamos para criar coisas especiais na fotografia e na filmagem. Não havia muitos objetos naquele lugar, portanto não teria muito o que causar sombra. A não ser eu própria. Mas, com a iluminação na qual, independente do horário, faz parecer que está de dia, seria o suficiente para rebater seja lá o que meu corpo fosse criar. Me manteria segura por muito tempo até eu conseguir consertar isso.

Caminhei rumo ao meu apartamento, reconstruindo todos os passos desalentados que eu havia dado. No progredir de minha caminhada, os animais sombreais recuavam e formavam um corredor entre mim. Grunhiam e arregaçavam as suas pressas. Isso me assustava até a alma. Fazia o meu corpo querer parar, estagnar e desvanecer. Me levar ao coma eterno e tirar-me deste inferno. Eu poderia mesmo ter um ataque cardíaco em meus curtos vinte e três anos de idade antes mesmo de pegar a chave de meu carro. Mas, azarada como eu sou, jamais poderia ter o privilégio da morte menos dolorosa.

O sangue que caíra dentro do meu alto-falante finalmente teve sua deixa e o fez falhar, queimando-o. O som abruptamente parou e, de maneira inevitável, o corredor tenebroso que antes me ladeava desmoronou-se e avançou para cima de mim.

Duas luzes brilharam em minha retaguarda e avançaram nos animais, lançando-os longe. O barulho do motor aumentou e o carro derrapou para perto de mim. Os faróis desligaram, mas eu ainda pude encarar o motorista, que me indagou:

"O que diabos está acontecendo aqui, Eli? Eu tentei te ligar, mas você não atendeu!"

Foi aí que ele se calou e arregalou os olhos quando viu o estado de meu rosto.

"A sua ligação, como sempre, foi uma surpresa, Daniel, mas eu estava ocupada demais para atender." Então uma lágrima escorreu de um dos meus olhos que ainda funcionava.

Era possível ouvir eles se aproximando.

"Entra no carro! Rápido!", gritou, enquanto varria o olhar inquietamente pelo estacionamento.

A aranha que, antes era meu fruto e me perseguira, se aproximava em passos mais rápidos do que eu podia ver, bem acompanhada de outros de sua espécie. O meu coração se alarmou. E acredito que isso me fez criar força para entrar no carro. Joguei-me no banco do passageiro com o Daniel já tomando partida, sem mesmo fechar a porta. Em minha paranoia, como nos filmes, minha perna seria abraçada pela aranha e, aí, seria arrancada. Mas com o impala velho que meu amigo ganhara do pai, o ronco do motor fez todas as criaturas se distanciarem.

"Anda! Acelera isso! Nos tira daqui, caramba!"

Ele me olhou com os mesmos olhos arregalados de antes e a boca lentamente foi se abrindo. Não parecia conseguir falar.

"O que foi, em? O que aconteceu, Daniel?", perguntei, misturando desespero com raiva.

"A gasolina acabou. Algo furou o tanque."

Continua...

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