domingo, 21 de fevereiro de 2016

Sombra e Ladra


Parte I

Isto é uma confissão.

Tenho pouco tempo até que ela me consuma por completo, então, serei rápida.

Há muito tempo que venho sendo atormentada pela minha própria sombra. Sim, parece loucura, mas isso é um fato verdadeiro. Ela persegue os meus passos e os meus pensamentos. Não tem como me livrar dela! Eu fujo, mas ela sempre vem atrás. Eu apenas tenho trégua no escuro; quando escurece ou eu apago as luzes. Mas essa é a parte mais perigosa, porque no mais pequenino surgir de um feixe de luz, e eu estou acabada.

Quero me livrar disso, mas como posso fugir de minha própria sombra?


Vou lhes dizer, agora que sei que não há mais saída, como isso tudo começou. Se eu tiver que ser devorada por ela, quero que pelo menos saibam que eu existi e o porquê de tudo isso ter acontecido.

Era apenas um dia estressante como os outros. Sim, o início foi como a maioria dessas histórias de terror. Foi através do comum e do banal. Estava de dia, quase entardecendo. Joguei-me na minha cama, esperando afundar no colchão e nunca mais ser encontrada. Eu estava sozinha, sem ninguém para conversar, tentando consertar os meus pensamentos quebrados. Não conseguia pensar direito, sequer imaginar. Estava estagnada. Como eu disse antes: quebrada.

Atirei o meu corpo para o lado numa má fé de se mover danada e, então, olhei para a parede à minha esquerda. Contemplei a minha grande sombra lentamente desvanecendo. Era uma parede tão branca quanto papel acabado de ser feito. A luz que o sol lançava pelas minhas janelas haviam produzido isso. Era gigantesca! Ver aquele clima alaranjando crescendo vagarosamente e fazendo minha sombra aos poucos sumir era verdadeiramente fantástico!

Sabendo do fim iminente dela que o próprio mundo havia lhe sentenciado, eu tive uma ideia estúpida. Resolvi conversar com minha própria sombra.

"Ei, por que você é tão fraca?", indaguei. Mas ela não respondeu. "Precisa depender de terceiros para sobreviver. Que piada", disse eu novamente. "Bom, estou aqui apenas para jogar conversa fora. Não me leve a mal."

Virei-me para o outro lado, pondo os meus dois braços sobre minha cabeça.

Me surpreendi quando recebi uma resposta. Porque era obvio que eu tinha enlouquecido. Ela disse:

"Você quer brincar?"

Levantei-me voando da cama e verifiquei todos os cômodos da casa. É claro que eu estava sozinha. Eu não havia dito isso antes? Ninguém havia entrado em minha casa ou me batido na cabeça. Eu estava, realmente, enlouquecendo. A sombra não saiu do lugar, seguiu lá, me esperando.

Quando voltei para o quarto, ela continuou a manter um sorriso no rosto. Sua cabeça me acompanhou até eu parar em sua frente. Ela já tinha ganhado mais forma e detalhes, mesmo com a aproximação do entardecer.

"Você quer brincar?", ela repetiu, abrindo um sorriso ainda maior que cobriu toda a extensão da minha parede.

Ciente de que eu estava louca, respondi:

"Sim, eu quero brincar. Mas do que vamos brincar, bobona?"

"Sombra e ladrão."

"Sombra e ladrão? Essa é nova para mim. Tudo bem, vamos brincar. Como é?"

Quando me dei conta, ela havia sumido. O sol já não produzia mais combustível para ela continuar. Sua sentença havia sido executada.

O dia eventualmente anoiteceu e as coisas começaram a se complicar. Eu me sentia paranoica. Alguém estava constantemente me observando e eu sabia disso. Atrás das paredes, atrás dos móveis? Alguma criatura maligna com olhar soturno e extremamente apavorante? Eu possuía consciência disso a cada passo que dava. Tinha medo de me virar e acabar vendo a imagem de alguma criança medonha à minha retaguarda, sorrindo de maneira asquerosa e acenando com sua pequena mãozinha putrefata, como aqueles vídeos populares do Youtube. Morria de medo; no sentido literal. Eu não apostava fichas no coração de uma medrosa. Para quem mora sozinha, é um pavor constante.

E por causa disso deixei todas as luzes do meu apartamento ligadas. Não tinha coragem de entrar em um cômodo escuro e vazio e encontrar o que eu não queria lá.

Mas este foi o meu pior erro, pois aí, a paranoia aumentou e eu me senti rodeada de aberrações sobrenaturais que apenas se preparavam para me torturar psicologicamente.

Entretanto, não eram crianças, monstros horrendos ou coisas do tipo, eram apenas sombras.

Uma no fundo da sala suavemente falou:

"E então, ainda estamos brincando?" Depois se seguiu uma enchente de pequenas sombras dizendo repetitivamente:

"Adoro brincar!" "Adoro brincar!" "Adoro brincar!" "Adoro brincar!" "Adoro brincar!" "Adoro brincar!" "Adoro brincar!" "Adoro brincar!" "Adoro brincar!" "Adoro brincar!" "Adoro brincar!"

Eram vozes infantis, rascadas, e com um ar totalmente irritante.

Apavorada, levei a minha visão involuntariamente para o prédio vizinho. Vi uma sombra em forma de lobo caminhar por trás da janela em plena madrugada. Era apenas uma sombra? Eu não sei afirmar, mas o que veio por debaixo de mim, com certeza, era uma sombra. E era a minha sombra! Ela do nada surgiu e de súbito cresceu, tomando todo o piso da sala de estar. O tom hostil e gozador veio em seguida:

"É melhor você correr!", ela alongou a frase de forma horripilante, depois gargalhou.

Corri no desengonço até a porta de meu apartamento e bati a lateral da minha barriga em uma mesa de mármore. Remexi na maçaneta pelo menos umas três vezes até ter força para abri-la. Quando consegui abrir, minhas pernas travaram no início da escada. A sombra continuou vindo, tomando cada vez mais proporção. Por desespero, olhei para trás e congelei totalmente. Ela não possuía uma forma humanoide, mas, sim, a de uma gigantesca aranha que rastejava através do solo. Gritei! E gritei alto! O grito se propagou por todo o prédio e a sombra recuou. Criei forças e comecei a descer as escadas, degrau por degrau, desesperadamente. Mas lá fora era ainda pior. Sombras por todo lado, seja sob os postes, seja através das casas. E cada sombra possuía uma forma ainda mais voraz que a outra. Era um zoológico sombreado do terror.

Até eu sair, as sombras vagavam aleatoriamente pela cidade, como animais sem perspectivas alguma de onde estavam. Quando me viram, subitamente viraram-se para a minha direção e arregaçaram suas presas. Eu precisava correr, correr para um lugar iluminado ou completamente escuro que não houvesse sombra alguma.

Desloquei-me até o meu carro enquanto as criaturas me perseguiam. Vinham em uma horda implacável, e eu mal sabia onde havia deixado a chave do automóvel. Mas é claro, estava no meu apartamento. Eu fiquei cercada, não havia como voltar. Se eu tentasse, daria de cara com elas. Então, tirei o meu casaco, amarrei-o em meu cotovelo e quebrei o vidro do carro. Coloquei a mão lá dentro, tateei pela porta e, então, a abri.

Uma sombra em forma de leopardo, no decorrer de minha entrada no veículo, pulou em cima de mim; meu reflexo lerdo só fora perceber quando ela já estava tocando em meu corpo. Felizmente escorreguei em uma poça d'água no meio do estacionamento e cai de baque no chão. A sombra passou por cima e rolou pelo asfalto. Aquilo machucou, mas não mais do que machucaria se aquilo tivesse me acertado. Levantei-me e me joguei para dentro do carro, trancando a porta o mais rápido que pude.

Lamuriei forte enquanto denúncias acomodavam-se em meus pensamentos. Lembrei que o vidro estava quebrado, eu estava sem a chave e cercada por esses monstros, mas, ainda sim, segura. Pois dentro do carro havia apenas escuridão. A ausência da luz. Não a projeção de um corpo à frente dela.

O problema, então, é que o meu celular tocou subitamente e o seu visor iluminou todo o meu rosto; era um dos meus amigos. Uma mão saltou em direção de minha face. Ela, com certeza, iria me devorar!

Continua...

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