sábado, 21 de novembro de 2015

Escapismo

Eu nunca fui homem de fugir. Não mesmo. Não fujo e não fujo. Continuo sem fugir. E faço isso por raiva. Raiva pura de fugir. Tenho tanta raiva de fugir que estou deitado em minha cama. Estou de barriga ao teto e de expressão séria. É raiva. Podem ter certeza. Pura raiva de fugir.


Estou deitado e dormindo de olhos abertos. Mas quem diabos disse que estou deitado e dormindo de olhos abertos? Eu? Não, não. Não estou dormindo. Estou acordado. Estou acordado e sentado debaixo da sombra de uma árvore tão grande quanto imaginamos que Deus seja. Embora esteja de noite, estou no início de um amanhecer. Não estou mentindo. Já vejo um sol vagarosamente crescendo no horizonte deste campo em que eu estou. É um campo infinito, de relva verdejante e aparada. Mas quem diabos apara um campo deste tamanho? Aqui não faz frio e nem calor. Deve ser a raiva. Só pode ser a raiva de fugir. Parece que o clima nem existe de verdade. Com este ambiente quieto e amplamente confortável, minha cabeça fica bem aparadinha. Que nem o campo. Limpa. É. Posso dizer que isso é minha zona de conforto. Começou depois que eu matei eles. O problema é que eles não estão mortos. Mas eu matei. Pode ter certeza.

- Quem é você? - uma sombra me pergunta. Mas eu só vejo parte dela.

- Quem sou eu? Oras, por que isso lhe importa?


- É a primeira vez que vem aqui? - a sombra continua a perguntar. Paro para pensar. Viro para o lado e então vejo uma garota. Não sei dizer como ela é, pois não a vejo muito bem. Não aqui neste lugar. Não o que eu não quero ver.

- Como assim primeira vez? Sempre estive aqui.

- Mas é claro que não - ela retruca. - É a primeira vez que lhe vejo neste campo.

- Você deve ser cega, então.

- Não sou mesmo! Venho a este lugar desde sempre e nunca te vi aqui. - Então ela pausou. - Você deve ter vindo de outro lugar.

- Não. Nasci e moro aqui. Olhe para lá. - Apontei para minha cabana logo à frente. - Minha casa é ali.

- Mas aquela cabana não é sua. É minha - disse ela.

- Pare de mentir. É claro que ela é minha, não sua.  

- Acho melhor você acordar.

- Acordar? Mas eu já estou acordado.

- Não está. Vejo isso no seu rosto.

- E por que você não se manda daqui?

Mas ela ignorou.

- Se aquela é sua cabana mesmo, por que não vamos até ela? Assim você pode me provar.

- Pra mim tudo bem.

A gente nem precisou andar, pois bastou piscar e já estávamos dentro da cabana.

- Você mora nesse chiqueiro? - ela perguntou, agora sem incredulidade.

- Não... Sim! Mas não era para estar bagunçado assim.

A cabana era pequena; um cubículo, mas também era muito comprimida e grande, parecia infinita. Não estou brincando, eram os dois! 

Havia uma fotinha sinistra em cima de um balcãozinho de madeira. Bastou a garota dar uma olhada e ela desabou de joelhos no assoalho. Começou a chorar. Chorou tão forte que meus ouvidos cegaram.
Sim, cegaram. Pois aqui você vê através deles. Os olhos sentem o cheiro e o nariz escuta. Por que não? Parece impossível? Não é.

Assustado, eu perguntei:

- O que foi?

- Que horror! Olhe para essa foto! - ela disse. Olhe! - Daí chorou ainda mais.

- Mas que diabos de garota descontrolada - murmurei para mim mesmo.

 "É cada uma em que eu me meto..." Apanhei a foto da mão dela. De raiva mesmo.

Mas não havia foto nenhuma. Apenas a moldura.

- O que você quer que eu veja aqui? Não tem nada.

- É claro que tem. É a foto de uma família. Olhe.

- Devo ser cego, então. Não tem nada!

Tentei arremessar a foto para longe, mas ela havia grudado em minha mão.

- O quão louco isso ainda pode continuar? - exclamei.

Sacudi, sacudi e sacudi. Mas ela não caía. Olhei novamente para a foto. Então tive um vislumbre.
Era a foto de uma família. Uma família morta. Haviam quatros pessoas na foto. Provavelmente o pai, a mãe, o filho e a filha; ambos ainda pequenos. Todos estavam com um olhar sem luz. Mortos. De olhar fixo à pessoa que segurasse a foto. O garotinho sorria, parecia feliz. Mas não estava. Chorava.
Mas por que diabos? A família continuou a olhar para mim. Olhava, olhava e olhava, parecia viva.

Por Deus, eu queria arremessar aquilo o mais longe que eu pudesse.

Ouvi um ruído. Vinha do cômodo infinito da cabana. Lá do fim. Do fim do infinito, pode?

Dizia:
"É hora de acordar." E ressoava infinitamente pelo lugar. "É hora de acordar." É hora de acordar."
Olhei para frente e então vi a garota. Não chorava mais. Porém estava morta que nem a família da foto. Estava solevantando, quase caindo. Como se estivesse bêbada. Parecia um zumbi. Sua pele estava putrefata e cinza. Em pé, ela permaneceu parada me fitando.

- Já sei. Isso aqui é uma paródia da Noite dos Mortos-Vivos e eu sou o convidado especial. Ótima maquiagem, gracinha. Mas agora é hora de se mandar daqui, você e toda a sua equipe. Vai, vai! Preciso dormir. Já é de noite, mesmo que já tenha amanhecido. Preciso do meu sono de beleza. Embora não exista ninguém aqui, além de você e eu. 

Mesmo morta ela me perguntou com uma voz rascada:

- Você sabe o que é realidade?

- É claro que sei. Realidade é aquilo que você vive.

- Está certo. Realidade é aquilo que você vive. Mas é só isso?

- Acho que sim.

- A realidade é muito mais complexa do que isso.

- Por que estou conversando com um zumbi?

- A realidade é muito mais do que você vive. Realidade é um estado de desconforto e conforto.

- Isso não faz sentido.

- E a realidade faz sentido, por acaso? Olhe bem para dentro de sua mente. O que você pode dizer que é real e o que não é? O que você sente? E se o que você sente é apenas uma camada da verdadeira sensação? Você diz que sempre esteve aqui. Mas nunca esteve. Como pode ter certeza que sempre esteve? Sentindo?

- Isso mesmo. Se eu sinto, então é real.

- A realidade é aquilo que você quer que ela seja. Somos tão ingênuos na complexidade da mente humana. Se a verdade é inegável... crie a sua própria. Já ouviu isso em algum lugar?

- Acho que em um jogo.

- Se está difícil, o que você prefere? Continuar nesta dificuldade ou ir para algo mais fácil e simples?
Fiquei calado. Ela continuou:

- A melhor forma de escapar da realidade é se jogando em outra realidade. Que é o oposto da sua verdadeira. É tudo uma contradição. Mas quem se importa? Se é uma contradição ou um paradoxo, deixe ser.

- Então isso não é real?

Ela sorriu e disse:

- É claro que é. Você só precisa sentir. E se for o suficiente para lhe deixar feliz, então que se dane. Seja isso, não é? Você só precisa ter cuidado, pois de vez em quando, você acaba acreditando tanto nesta realidade, que ela se torna a sua realidade. E como você pode escapar de uma realidade que é verdadeira, para uma outra realidade que é falsa?

- Escapismo.

- Você é um bom garoto.

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