domingo, 1 de março de 2015

Três Flores

E a uma sexta-feira de noite, quando a inércia em sua máxima plenitude me atinge, surgiu um telefonema inesperado. Em seguida, um choro de desespero de sua própria mãe se manifestava em todo aquele apartamento quebrando a paralisia plena e florescendo o sentimento de tristeza no ambiente. O que tinha acontecido? 
     
Aquele ser vivo que nós depositávamos toda nossa compaixão em sua linha final de chegada que se aproximava a cada dia, foi abençoado com a consequência de abandonar toda dor e sofrimento para atingir o belo e o sublime. Aquele ser vivo que nos alegrava com sua companhia, que retirava nossa solidão da maneira mais aconchegante e firme com apenas o gesto de lhe seguir por todo restante de sua vida, de lhe proteger de quaisquer perigos que poderiam surgir de noite, de estar sempre ao seu lado oferecendo amor, companheirismo, lealdade, obediência, pedindo em troca apenas carinho, comida, água, e um lugar para descansar, seja em cima de uma madeira, em um tapete, lençol, o que for, havia partido.


"Para um cão, você não precisa de carrões, de grandes casas ou roupas de marca. Símbolos de status não significavam nada para ele. Um pedaço de madeira já está ótimo. Um cachorro não se importa se você é rico ou pobre, inteligente ou idiota, esperto ou burro. Um cão não julga os outros por sua cor, credo ou classe, mas por quem são por dentro. Dê seu coração a ele, e ele lhe dará o dele. É realmente muito simples, mas, mesmo assim, nós humanos, tão mais sábios e sofisticados, sempre tivemos problemas para descobrir o que realmente importa ou não. De quantas pessoas você pode falar isso? Quantas pessoas fazem você se sentir raro, puro e especial? Quantas pessoas fazem você se sentir extraordinário?"
     
Você imaginaria o buraco que isso poderia abrir em sua família? Aquela companheira que lhe seguiu por toda sua vida, que preencheu parte do seu coração com alegria, morta, em um canto qualquer da casa, sufocado com o seu próprio sangue e sozinha? Aquela companheira que estava cega, com um possível câncer, apenas esperando os seus últimos dias chegarem, no mais completo estador de dor contínua e imparável? Definitivamente, sua partida deve ter sido aliviante.
     
Sabemos que uma das coisas inevitáveis da vida é a morte, e que qualquer ser vivo tem o seu compromisso com ela. Por mais medo que tenhamos do inevitável, ele sempre chegará. 
Embora cicatrizes ela tenha deixado em minhas mãos, horas de dores incessantes em minha cama, ela também deixou um buraco de saudades em meu peito. Um buraco de saudades em toda minha família. 
      
Aquela criaturinha que amávamos, que cuidávamos do melhor jeito que podíamos até o fim, que jamais a abandonamos até mesmo no auge da tragédia, teve o seu enterro no dia seguinte, num sábado de manhã, no fim do nosso quintal. Coincidentemente, haviam três flores perto de onde jazia o corpo falecido dela, que provavelmente em uma percepção dramática e emocional, representasse três pessoas que mais amaram essa criatura na vida; meu pai, minha mãe e minha irmã. Se eu tivesse que representar algo, talvez seria o galho.  
Ouvia minha mãe ao fundo que não parava de chorar enquanto era consolada insistentemente por minha irmã. 
     
Não demorou muito até que pudéssemos dar o adeus definitivo para aquele ser vivo que nos acompanhou e nos ensinou o verdadeiro significado de companheirismo. Me lembro tristemente da época em que subitamente, de um dia ao outro, ela perdeu praticamente toda sua visão e ficou desnorteada por semanas. Mostrava desespero em sua feição, confusão em seus passos, tristeza em seus latidos, dor em seus gemidos. E mesmo assim jamais largou do que fazia antes; nos seguiu, mostrou afeto, proteção, força de vontade, companhia, mesmo sem sua visão. Sabe de uma coisa?

O amor é a compensação da morte. E jamais esqueceremos-a. Afinal, carrego comigo cicatrizes que ela mesma criou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário