terça-feira, 29 de maio de 2018

O Grande Defeito

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Ver o mundo por uma janela acinzentada sempre me fez questionar as cores reais de uma paisagem. E logo fico deprimido. Já que apenas a dessaturação de um cenário é o bastante para tornar sombria e desesperançosamente infértil a perspectiva de uma pessoa. Ó, sim! Qualquer lugar pode ter tantas camadas e tons como a alma volúvel de alguém que chegou recentemente à vida, pois a mais brilhante luz poderia inteirar o vazio do exato espaço e intrusivas sombras o consumirem. E, dependendo de como a paisagem levanta-se aos seus olhos, de como o solo parece afetar a projeção do seu passo, você pode viver centenas de vezes no mesmo lugar e ainda assim testemunhar, a cada recente vivência, novos lados, um intrínseco ao outro, homogêneos, nascidos do um e multiplicados pela infinitude individualizada do ser.

Confesso: às vezes gosto de me sentir frustrado. Às vezes, gosto de me sentir deprimido, chateado. As pessoas estão o tempo todo fingindo felicidade, enganando a amargura, sorrindo com os temores mais cruéis da incerteza emocional enquanto os seus rostos são esmagados; são pavores oriundos de uma alma enganosamente alegre. Bem, sentimentos são sempre subjetivos. Quero dizer: a forma em que as pessoas interpretam esses sentimentos é particular. Os sentimentos ainda estarão ali, exatamente como foram, inicialmente, concebidos. Mas, dependendo de quem você é, você pode se sentir bem estando triste — ou o oposto. Talvez nos sentimos tristes porque a tristeza foi vendida como uma sensação ruim, mas, se por meio de dados irrefutáveis, provassem o contrário, que a tristeza é demasiadamente valiosa e deveria ser a condição primária do ser humano, teríamos espasmos de ódio quando estivéssemos felizes. Pense nisso: se a massa, aquela que trata com indiferença as complexidades humanas, fosse historicamente moldada à infelicidade (e foi, apenas não admitimos), seríamos uma sociedade profundamente consciente, pois entende-se muito mais da vida ao sofrer do que sorrir e gozar. Na verdade, as pequenas parcelas do legítimo prazer seriam extraordinariamente mais palpáveis. A nossa senciência, em seus dourados pisques casuais, transcenderia o regojizo humano e nos transmitiria um júbilo minimamente divino. Agora invertam a situação. Troquem todo o prazer que citei em infelicidade. Conseguem agora perceber o motivo no qual aprecio tanto os meus momentos frustrantes? Porque de tanto mentirmos e omitirmos os nossos sentimentos, criamos uma ilusão forte o bastante para simular. E essa felicidade falsificada passa a ter uma nítida influência em nossas vidas. Deste modo, quando entristecemos, quando conhecemos o sentimento puro e primário, aquele que suscitou nossa esfera de emoções, nos sentimos bem, únicos, os eleitos pela existência para prová-la do jeito que fora criada para ser provada.

Eu não sei. Não sei por que reprimimos e escondemos demasiadamente a condição de estarmos, no exato momento que antevemos a lucidez, amargurados com a existência. Pois logo vociferam a tua pessoa que é um paciente da depressão, de que está quebrado nos detalhes internos, e que o sofrimento prolongado é uma característica de enfermidades mentais e não da condição humana. Esse desprezo é indigno. Não deveria ser direcionado à melancolia — mas à felicidade. Se há algo corrosivo o suficiente para destroçar uma vida é a perseguição cíclica da alegria. Um ontológico jogo onde o sentimento perseguido é a criação personalizada do indivíduo. Onde o resultado final não importa; é inconclusivo, imaterial e instável. A satisfação dura o quanto você demora para compreender que, seja lá o que estiver sentindo, não é satisfação e nem tristeza, é nada; é somente um preenchimento e a ilusão da barriga cheia, cuja esperança é a de aliviar a dor, que mudará quantas vezes for necessária para continuar criando ilusões de perseguição.

Ah! Mas grite a alguém o quão triste é e de morte será amaldiçoado. A maioria das pessoas, seletivamente cegas, apavoram-se com a dor do outro e fogem, utilizando um de seus instintos primitivos mais básicos, o de fugir — afinal, quanto mais básica é a consciência de uma criatura, mais ela temerá a dor e o dano à sua integridade —, para o refúgio plastificado do prazer e a caverna vergonhosa do conformismo. Lugares ilegítimos da realidade. A passividade emocional não pode ser confundida com covardia. Não! As pessoas não fogem do sofrimento por fraqueza — nós somos especialmente adaptados a suportá-la, na verdade —, elas foram projetadas a evitá-lo. São convencidas de que há muito mais força em se viver num recanto abundante de felicidade e desviar de infortúnios. Condicionadas a achar que a infelicidade é tola e irremediável sinal de fragilidade.

Ninguém é apto a lidar com a tristeza alheia — e haverá, sempre, de tratá-la ou com desrespeito, ou indiferença ou incômodo. Tristezas alheias são desinteressantes e pouco acrescentam para o nosso egocentrismo existencial; são, na verdade, dramáticas. Pois a melancolia é emocional, e aos olhos frios e lógicos de alguém que não a sente; de alguém que a recebe gratuitamente e não tem correspondimento emotivo; e sob uma perspectiva racional, nada soa profundo, espirituoso ou empático. Pelo contrário, adicionará melosidade supérflua, dramaticidade exacerbada, soará como uma carta de suicídio — o ápice do sofrimento humano, mas impossível de encaixar um motivo crível capaz de explanar em absoluto as causas sem cair em relativismos, visto que a aniquilação própria jamais poderá ser quantificada racionalmente. Ninguém sente dor com a razão.

Não é a toa que para se ter um defeito, basta confessar a sua inclinação à solidão. E tudo que remete ao pensamento e à reflexão, quando submetido à correção melancólica, é excessivamente deprimente e desesperançoso — é niilista, é pessimista; mas não poderia ser realista, nem de relevância cultural. Apenas porque a alegria é a pátria da nossa sociedade. A quimera da perfeição. A falácia de que o ser humano é muito mais absoluto se for resplandecentemente disposto ao agradável e ao iluminado, se a autoestima for elevada, o amor próprio exagerado, e as suas características transcenderem os defeitos e os tornassem somente em qualidades. E por que a tristeza precisa ser o defeito e a alegria a qualidade?

Não há amor no mundo para mim. Porque nasci do avesso. Todas as minhas qualidades são os meus defeitos, e não estou disposto a mudar.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Eterno e Uno

zerochan

Sei que minha vida está condenada a ser inteiramente solitária; em cada aspecto, em cada âmbito, em absolutamente cada curva. E ter consciência do agravamento ininterrupto desta doença não a diminui, de forma alguma. Sim, de fato refiro-me a ela como uma doença — e não uma condição social. Considere o seguinte: enfermidades são sempre espontâneas e, de certa forma, inconscientes de vontade. Embora tenham causas, quase nunca são provocadas intencionalmente. Não me permito mergulhar na solidão por mera pilhéria, estou submerso porque fui engolido involuntariamente pelo mar. Portanto, saber que está se afogando não altera o evento de que, neste exato momento, água invade os seus pulmões e te sufoca até à morte. Na verdade, a consciência do sufoco é o princípio do desespero e, portanto, do aprofundamento. Quanto mais se conhece a própria condição enferma, mais tende-se a inibir a recuperação; dado que somos naturalmente propensos ao declínio — e não à redenção. Trata-se de facilidade, e facilidade é lustrosamente atrativa.

Não consigo visualizar-me com ninguém, no fim, sem retorcer-me de desprezo e salivar de angústia. Parece-me impossível encontrar uma alma suficientemente capaz de encarar, frente a frente, infinitas dores congênitas de minhas jornadas aos caminhos sombrios e psicológicos da solidão. Não neste mundo onde a ilusão é a salvadora de existências e relacionamentos. Sei disso! Sei que sou abundantemente insuportável, irreparavelmente tedioso! E que minhas manias filosóficas ferem qualquer banalidade amável. Reconheço que mesmo quando estou feliz, não demorará para desmanchar-me em melancolias súbitas e insignificativas e estragar o momento. Não sou merecedor do amor, nem da mais sincera demonstração de afeto. Não acho que seja, sinceramente. Sabe quando, de alguma forma misteriosamente sensitiva, você não se enxerga como um escolhido do apego? E que foi condenado, seja por uma força mística e divina ou apenas pela improbabilidade, a perseguir e se contentar com o castelo apodrecido do afastamento, do isolamento eterno, onde você, como indivíduo, foi reduzido a uma insignificância pseudo-humana? E muitas risadas eu já dei por dizerem-me o contrário. De dizerem: independentemente do quão certo você esteja da eternidade de seu isolamento, tenha ele uma natureza forçada ou inata, um milagre lhe fará encontrar alguém e mandar para o inferno tudo aquilo que outrora significou verdade. Gargalho justamente por compreender que o meu azar amoroso é indescritivelmente encurvado e único, pois não somente é uma maldição da vida como um sentenciamento próprio. Por algum motivo, talvez puramente cômico, condenei-me a abraçar o azar como resolução de vingança definitiva com a vida. Sim, vingo-me dela por pura raiva e graça. Oras! Não valeria a pena ser, por tantos períodos de existência, menosprezado se o intuito final é uma parcela de redenção medíocre. Ó, tome, meu filho da dor, aquilo que lhe proibi por tantos anos — e sem orgulho engula meus restos. Seja grato, pois por apenas maldade ofereço esta oportunidade para sorrir, visto que minha piedade não estende para além do agora. 

Prefiro sofrer por escolha do que ser submisso pelo humor satírico e paradoxal desta sociedade poliamor. Admito possuir defeitos monstruosos, trejeitos maníacos, e, com muito orgulho infeliz, me sinto intimamente seguro. Entretanto, admitir não soterrará os desejos. Afinal, como surgem! E como infernalmente nos afetam! Se ter consciência da enfermidade já é incômodo o bastante para convulsionar arrogantes, saber que muitas oportunidades serão miseravelmente descartadas por você ser quem você é transmitirá senão uma insuportável sensação de inexistência e impotência. Pois, além de tudo, você não está sozinho por escolha. E quando a solidão é involuntária, certamente há um desesperado anseio para se rumar à saída. Repulsamos o que temos.

Não confundo, também, meu desespero com indiferença. Pois estou legitimamente desesperado. Por todas as coisas das quais me acostumei a falaciar inverdades odiosas. Ou ao menos distorcer. Amaldiçoar, reclamar, é uma estratégia dos incapazes e dos frustrados, não mostra ponderamento ou sequer inteligência e bom senso, mas uma distorção de sentimentos direcionados a preencher dependências emocionais. Tendenciosidade é tudo aquilo que os odiosos do amor, como eu, garantem em expressividades viscerais semelhantes a esta. E fazem, da exata maneira na qual indiquei anteriormente, por vingança. Estão o tempo todo se vingando. Não têm qualquer alvo concreto! Querem apenas descarregar a frustração de serem os incompreendidos, de terem sido os namorados da desesperança. Como haveria de ter credibilidade em uma dissertação sobre a invalidez do amor se a mesma é pautada apenas nas memórias desamorosas do autor?

Não quero conclusão. Não quero chegar a lugar algum. Eu poderia, com toda sinceridade do mundo, exclamar: embora sejamos fracos de fé, o amor sempre desenvolve um jeito de penetrar as almas mais melancólicas! Contudo, estaria sendo infiel às minhas opiniões se me expressasse assim. O amor aparecerá, sim, para qualquer um de nós. Porque amar não é sorte, é azar — é estar doente. E somos azarados, se lembra? Principalmente em ficar adoecidos. Não estamos perseguindo o amor, ele está nos caçando, galhofando com os nossos critérios; e intencionalmente se afastar não se trata sobre sofrer, e, sim, adiar a destruição irremissível que transborda nesse sentimento. É um gatilho despercebido. Estar amorosamente isolado é exclusivamente o seu espírito trabalhando para se manter sóbrio e indivisível, porque o espírito sabe que em um dia ou em uma noite você não será capaz de desviar do infortúnio de amar e estará condenado imutavelmente a viver com alguém, a ser coletivo, a estar em constante companhia, quando se nasce só e merecidamente necessita acabar assim; não inaturalmente, não nesse encerramento televisivo; só, agonizando no deleite mais descomunal de solidão — eterno e uno.

domingo, 6 de maio de 2018

A Fuga do Absurdo

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Às vezes, tenho a intrusiva sensação de que converso, metafisicamente, com o mundo e o universo, e que, embora muitas de minhas dúvidas sejam parcialmente esclarecidas por meio deste cósmico poder, foge-me a capacidade, como a maldição de um dom, de controlar os seus efeitos colaterais. Pois se há algo colateral, é, claramente, conhecer o invisível e determinista complô formado pelo o universo. Se este infindável espaço negro não exercesse tanta influência em nós, poderíamos presumir que haveria de existir uma piscadela de consciência alienígena num desses cernes interstelares regendo um saudoso ode à vida. Mas quem ou o que se importaria em tal grau com nós? Porém não há nada mais consciente do que o próprio indivíduo capaz de questionar consciências de outros mundos. É tão ciente de sua capacidade, mas, ao mesmo tempo, indiferente à própria ilusão de conscientizar o que não fora feito para possuir consciência. É extremamente assustador pensar que a normalidade é intrínseca da criação, e que é, por sua vez, inerente da banalidade. Quando assumimos o caos da casualidade, também admitimos o trágico fato de que não somos especiais. E que não somos nem mesmo uma poeira cósmica, nem mesmo um átomo de importância. Da escuridão surgimos devastadoramente apavorados, paralisados pelo medo do vazio eterno, da falta de significado e da ínfima quantidade de luz invasiva neste vácuo.

Se um indivíduo perde o seu amparo, para dois caminhos tenderá a seguir: a busca de um novo amparo ou a aceitação da queda. Muitos de nós, presos a este frio espacial, se viram determinados a amparar as suas causas. Afinal, não poderia ser coincidência tudo isso. Um erro milagroso de algo que nem próprio consegue considerar que existe? Sim, pois se o universo não possui modos conscientes de operação, mas puramente espontâneos, não poderia validar a sua própria existência — nem pela própria lamúria de seus atos desenfreados. Existe sem existir. E logo, o ser humano desenvolvido, apto a pensar logicamente sobre fatos e teorias, sobrepujaria o universo em termos de força lógica e intelectual. Mas, entretanto, por que atribuir meios humanos de estimação se o que nós estamos tentando julgar é absolutamente inumano? A lógica é facilmente inutilizada quando a atingimos num muro de inexplicabilidade cósmica. A lógica se estende e se delimita até onde nós, seres humanos, conseguimos nos expandir e conhecer física e metafisicamente. Entretanto, por sermos físicos e carecermos de qualquer potência meta — exceto o dom de imaginar —, jamais compreenderemos, com a lógica humana, o sentido real da existência; jamais alcançaremos qualquer verdade absoluta, porque quando o raciocinar esburaca-se em paredes impenetráveis, tampa-se os buracos com relativismos e pluralidade de verdades. Não se busca uno tendo possibilidades infinitas de conhecimento. Por mania, ou mera pilhéria, nos contentamos em permanecer divididos.

Não se admite a impotência do pensar. Para nós, o pensar é a única coisa capaz de explanar as nossas dores existenciais e as raízes do viver. E se for exatamente o oposto? Proponho-me a pensar nisso. E se, na verdade, a única forma de experienciar as verdades do tudo é o sentir? Sem linguagens, padrões ou códigos arrebatadoramente complexos, lógica ou sentido? E se, para sermos plenos, tivermos que nos assemelhar ao universo? Não conhecer, não assumir-se indivíduo ou um ser, mas naturalmente entregar-se a algo que mesmo a existência tem medo? O que seria isso, afinal de contas? A morte? Teria de ser. Visto que, sem exceção, tudo que existe precede o seu próprio fim. E mesmo o tempo é refém da morte. Então, ela criou tudo? A morte é o zero da criação? O ponto inicial que estava lá antes mesmo de estar? E o que continuará mesmo quando tudo acabar? A morte não existe por si só. É a ausência da vida, e, justamente por não existir, poderia ser o princípio do tudo. No início dos inícios, nada existia —  e a morte é o nada. É, também, a escuridão. Não precisar-se-ia de um Deus para se criar a morte, nem o nada, já que, se há a morte, um Deus onipotente não poderia existir. Se tudo o que existe morre, caberia a Deus também morrer. E dessa forma, a morte seria infinitamente mais poderosa. 

Mas, então, de que maneira a morte traria e cultivaria a vida no seu próprio espaço infrutífero, dando-lhe permissão para crescer? Não conseguiria responder isso sem entregar uma resposta ridícula e desprezivelmente metafísica. Pela lógica, não conseguiríamos esclarecer a precedência de Deus, do Universo e da Morte. São as naturezas mais difíceis e paradoxais de se atribuir um início, pois isso não apenas levantaria indícios ainda maiores de irrelevância humana como nos faria vivenciar um ciclo infinito de antecedências e choques existenciais. E o que criou o quê? É a barreira de nossa inteligência. Uma sacana covardia de não aceitar a falta de soluções por meios humanamente pensantes. E, por mais fundo que seja esta vala bloqueadora, que dá nós em nossos cérebros, talvez não seja tão difícil declarar que haja uma forma de percepção diferente da nossa. Sem as nossas palavras, significados, anseios, sentimentos, sensitividade, imaginação ou visão. Poderia a nossa consciência ser o modelo mais básico dos projetos conscientizadores deste plano cósmico. Algo que ainda está constantemente evoluindo, mas longe de desvirtuar de anos de costumes, tendências e heranças terráqueas. Longe de se tornar distinta de sua erudição vetusta.

Estamos fazendo comédia com a vida. Usando o humor para justificar a ausência divina; a ausência do significado. Estamos pilheriando o tempo todo com o niilismo, o suicídio, o pessimismo. As saídas emergenciais causadas pelo entendimento absoluto de que não há entendimento absoluto, e que morreremos mais milhões de gerações para se avançar um passo sobre o que é o pleno e o eterno. E não! Não se precisa de muito para saber. Basta apenas morrer para se obter a plenitude — e não estou falando do suicídio, a morte prematuramente marcada, afinal, para todos nós, existentes, somente aguardar é o bastante para morrer. Contudo, uma vez morto, a morte renuncia a pronuncia e a expressão humana para lhe conceder o entender divino. No núcleo, no vaguear entre a vida e a inexistência, abençoará-te e dirá:

Escolha uma porta. Por uma, você volta à vida, mas sem quaisquer lembranças deste lugar e do que aprendeu aqui. Por outra, conceder-te-ei tudo aquilo que sempre ansiou, todo o conhecimento mais jocoso, puro e sublime, entretanto, privado serás da vida e jamais passarás novamente por aquela porta.

E sufocado por este sentimento agridoce do saber e, simultaneamente, do não saber, enlouquece inúmeras vezes por dia. Reza e suplica para Deus, para o Universo, para a Morte ou qualquer divindade, chorando em busca da resposta derradeira, sabendo, entretanto, que nunca receberá coisa alguma e terá por conta própria se afastar do absurdo. O absurdo de querer existir num lugar escasso de relevância até para o próprio lugar.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Azul Fosco

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Aquele dia monocromaticamente azulado ainda me frustra. O fosco da escuridão abriga todos os meus desesperançosos flashes e, de repente, o ínfimo durar daquela despedida é estendido infinitamente em minha própria perspectiva temporal. Cada vez que rebobina, assume uma forma e um significado diferente; entretanto, independentemente de quantos reinícios dramáticos houver nos lapsos, apenas um sentimento permeará, sem fim, o momento: a frustração. Pois nada é mais frustrante do que descobrir que algo maravilhoso aconteceria com você, mas fora evitado por circunstâncias banais e desvios bobos, tão malignamente inafetivos! E esse esticamento na memória é insuportavelmente doloroso para o ser. É a afronta, o desafio da vida para com suas crenças — finalmente, o delírio. Está mortalmente julgando-o, colocando em evidências a contradição moral e existencial construída por si próprio, gargalhando da sua incapacidade de admitir a covardia inerente de seu caráter, do medo de ser enterrado pela hipocrisia. A memória será negada todas as vezes em que ousar aparecer, mas, em cada negação, sobrará um fragmento reminiscente — e o acúmulo dessas peças descartadas montarão o quebra-cabeça anacrônico da verdade.

Vejo-me no vidro do carro. O meu reflexo sendo golpeado violentamente pela movimentação do cenário borrado. Na penumbra, aguardo o meu celular iluminar a aura de melancolia. Na cabeça, reproduzo todos os instantes impotentes de minutos atrás. Oras as imagens são nítidas e amargadas, oras os borrões contam uma história impossível de quantificar o não acontecimento. Tenho impulsos, terríveis intentos de desconstruir-me; de desmoronar a cabeça sobre o vidro e permitir que o balanço interminável dele tonteie meu sofrimento. Não havia como retroceder — exceto em memórias —, não podia consertar o tempo, nem a vida, nem uma ação já disparada sobre a esfera da causa e efeito; não naquele momento. E não importava o quão intenso permitia-me mergulhar na aniquilação e no arrependimento, porque ambas as coisas apenas me atraiam para a realidade. A verdade é a verdadeira aniquilação. O arrependimento somente aprofunda o choque.

Ao longo de dois dias não consegui dormir. Bem, eu tive duas horríveis noites de sono por conta de uma pessoa. Por mais intrigante que possa parecer, ela veio fantasmagoricamente invadir meus sonhos e causar-me enorme tristeza e insatisfação; pois ambos dias foram sonhados a respeito dela e de meu intento em me aproximar e penetrar seu amor. Não amo facilmente. Por Deus! Não sei, francamente, o que diabos está causando tal maldito sentimento! Mas não há maneiras de contestar que parte de mim fora afetada por ela e seu olhar magnético e profundamente azul. Muitos foram os momentos os quais viajei na imensidão universal de seus olhos e mesmo, explicitamente, presenteei-os com elogios. Talvez eu tenha enlouquecido e fui consumido pela ironia e o brutal karma da farsa. Talvez seja uma peça de natureza maldosa que anseia em derrubar minhas convicções e meus mais elaborados conceitos de solidão e plenitude. Fora bom, confesso, embora, em específica ocasião, eu tenha atingido níveis tão profundos de depressão que, por momentos, sucumbi ao desejo de eliminar-me — o qual, pelo menos por agora, foi devidamente suprimido. Conversamos muito e igualmente trocamos olhares. Por vezes sorríamos, por vezes apenas nos observávamos. Não nos aprofundamos no campo do conhecimento permuto, visto que ela parecia menosprezar a filosofia e todo o saber que outrora propus-me a entender e absorver. Pensando bem, nossos gostos e objetivos parecem atingir um ponto de disparidade anormal e terrivelmente indistinto. Entretanto, não foi a sua educação ou sabedoria do dia-a-dia que me conquistou. Acredito que foram, simplesmente, nossas fitadas e sorrisos. Num plano distante, tamanhas nuances jamais sustentariam qualquer espécie de paixão; porém preciso apresentar-me como um ser obcecado com os miúdos detalhes da vida. São as coisas mais encantadoras da existência — e as variáveis que não apenas singularizam quaisquer animais como enriquecem cada momento do viver e oferece a possibilidade da diversidade. Para quem pouco observa, verá um padrão arrebatador; contudo, por mais vicioso este aparente ser, é, em detalhes, completamente novo e único.

Divaguei. Trouxe a mim próprio o esquecimento, mas basta fechar os olhos e vejo uma faísca loira e contagiosa. Parece me perseguir, e sinto, algo de clareza espantosa, que nada sou para ela senão uma diversão eterna do presente e uma existência encantadora mas ridiculamente supérflua; uma criança no mundo real, cujas pretensões são alienígenas e distantes como o desconhecido deste universo. Sei, também, que não importa quantas vezes eu tente contatá-la — embora queira muito — não fará absolutamente diferença alguma, porque a paixão é algo mútuo, e não tendo nenhuma vez suspeitado dos anseios dela por mim, posso atestar que somente minha pessoa exagerou toda a ocasião. Pelo contrário, ela simplesmente desapareceu! E, para ser muito franco, acho que tudo acabou neste desabafo. Os sonhos, o sentimento, a conexão, o futuro. Não voltarei a vê-la tão cedo, e, quando isso acontecer — se acontecer —, ambos nos encararemos como desconhecidos e não haverá lembranças ou histórias. O tempo aniquilará as nossas memórias.

Não é o destino, nem o azar, que me impede de falar com ela. São meros eventos incontroláveis, são causas e efeitos. E, às vezes, tudo que há para se fazer num momento desses é deixar frustrar-se e abraçar o caos e a impotência.

Quando o hoje ficou tão distante? Eu ainda estou preso na mesma posição de antigamente, embora o mundo tenha se arrastado. É como se o tempo avançasse de súbito, numa velocidade tão inumana de se notar que todos os seus reféns fossem paralisados pelo seu movimento e, então, permanecessem nos exatos locais onde estavam. Os corpos envelhecendo, decompondo-se, mas nunca experimentando novas realidades. É o movimento de uma só posição. Andar sem sair do lugar. Conheço essa repetição como as inseguranças de minha alma, afinal, de tempos em tempos, esbarro-me com esse decadente espiral de defeituosidade. Às vezes, o choque é profundamente entorpecedor e disfarça-se de hábito — um padrão de comportamento tóxico e autodestrutivo, maquiado por explanações de espontaneidade. A natureza justifica o seu surgimento — e negar o natural é a maneira mais terrível de se entrar numa contradição.

Divaguei, novamente, como sempre costumo fazer. Como eu disse, atualmente, eu não deveria estar neste local físico na qual me encontro. Tantos atrasos surgiram! E, com eles, arrastei-me cada vez mais para a aceitação e a tolerabilidade miserável. Fui feito um prisioneiro do meu próprio teatro — uma marionete! Privaram-me os sorrisos sinceros e as reações genuínas! Afinal, notáveis as situações que precisei vender minha naturalidade por baixo preço! Depois de algumas semanas inerte, não resta mais nada no estoque do humor senão tédio, irritação e muito desprezo, já que o tempo diminui as grandes coisas e aumenta as pequenas. O meu mel, no auge de sua doçura, encontrou o amargor do envelhecimento e agora somente repulsa aquilo que antes atraiu. Vejamos que ser afastado de sua rotina pode-lhe afetar assustadoramente. Rotinas são, simplesmente, os hábitos que moldam você. Uma pequena parcela de significação existencial; um alimento vendido-lhe todos os dias. Relampejam-te motivos, significados, levam-te adiante — a um rumo cujos caminhos serpenteiam o maravilhoso destino do seu eu total. O resplendor eterno da consciência e do absurdo dela.

Porém, quando a sua rotina é desmantelada e interpolada com dezenas de outras absolutamente análogas a sua, o seu mundo é, de maneira visceralmente abrupta, girado de ponta cabeça. As suas crenças são balançadas com a verdade de outros mundos e apontadas como ilegítimas e ingênuas por indivíduos que não conhecem senão uma parcela insignificantemente minúscula da existência atemporal e plural. Mas você estará atolado nesta lama conspiratória, da cabeça aos pés, e a inverdade lamacenta tomará, tenha sua permissão ou não, a tua verdade de vida. A sujeira é uma espécie de fato absoluto. Todos os seres derivam dela. E é muito fácil aceitar a lama do que lutar todos os dias para se manter limpo dela.

Por fim, transcendendo integralmente as emoções, regurgita o esquecimento. O lar da inexistência, o abraço amoroso e total, sem distinção, sem preconceitos. O esquecimento não nega nenhum de seus filhos e, sim, os leva ao cenário da espiritualidade, da abstenção dos sentimentos, o frio espaço que habita os gigantes e mata os medíocres de essência. Traz a solidão esmagadoramente convidativa! Onde nada existe, estar sozinho é uma escolha luxuosa. O arrependimento desaparece, a importância de uma opinião se reduz subatomicamente. De falsas justificativas, esculpiremos verdadeiras construções memoriais, e a reconstituição mágica dos flashes brilhará através do tempo, trazendo-nos a confirmação de que, no fim, eternizou-se daquele jeito justamente para que a singularidade não morresse, não se tornasse trivial e, tampouco, desprezível. Para que, em uma dessas nossas infinitas idas e voltas, pudesse ser tão único quanto foi, é e será.

sexta-feira, 16 de março de 2018

A Matéria Negra do Amor

zerochan

Lojas de todos os tipos me cercam. Brilhosos letreiros revelam-se pomposamente, atraindo com magnetismo cada vez mais consumidores para os interiores de suas lojas. Neste instante, estou paralisado no centro deste imenso corredor lustroso do shopping. Acompanho um formoso casal de jovens atravessar meu campo de visão e desaparecer, tomando rumos que desconheço e nem tenho a curiosidade de considerar. Sinto minha expressão endurecer. Ela criara esse hábito. Enrijece sempre que testemunho um casal radiantemente amoroso passar por mim. Na verdade, ultimamente, ela tem se enrijecido por qualquer motivo. Talvez tenha percebido o contínuo ódio que venho a cultivar durante um exacerbado período e, por motivações inconscientes, muda-se instantaneamente. Ou, talvez, deva ser por conta de minha intrínseca contradição. Sabe, sempre que desprezo esses tipinhos modernos de namorados, sinto os meus olhos umedecerem. Não porque soa triste para mim, mas porque, no fundo, admiro a capacidade afetiva de tais indivíduos de construírem uma relação baseada em aspectos mútuos de confiança e tolerabilidade. Sei, por exemplo, que eu jamais conseguiria sustentar qualquer relacionamento amoroso — independente se a garota for uma mestra em tolerância. Boa parte de minha aversão invejosa, evidentemente, é resultado da minha impossibilidade em ser amado e da desistência em procurar o milagre sentimentalista e afetivo o qual me salvará do isolamento. Matematicamente falando, as chances de alguém encontrar a sua alma gêmea na mesma cidade em que vive é irrealista e cruel. E mesmo ampliando o cenário para nível nacional ou internacional, a probabilidade ainda é baixíssima. Reúna, então, a minha peculiar característica de desprezar o amor — pois eu nunca procuro por alguém. Assim poupo-me energia e evito o crescimento de frustrações. Como poderia encontrar este ser miraculoso cujas probabilidades são divinamente impossíveis? Não poderia. Mas o meu desanimo não se traduz a respeito disso. Veja bem: todos os casais não são perfeitos uns aos outros — e nenhum casal encontrou a sua metade da laranja! O ser perfeito e gêmeo não existe! É uma ilusão criada pelo acúmulo de sentimentos e afetos! Muitos somente chegam a essa conclusão após, de fato, terem conhecido alguém. Pois é convenientemente simples caracterizar um relacionamento como ideal e sublime quando já se construiu atributos positivos sobre incongruências existenciais e personalísticas! Isto não é perfeição! É a mais pura evolução e solidificação de habilidades e situações!

Não... se há algo em que eu não me preocupo é com este desejo absurdo de encontrar alguém capaz de completá-lo! Bem, acredito que todo este descarrego já tenha evidenciado o verdadeiro horror da incapacidade de ser amado. Para alguns indivíduos, e qualifico-me como um deles, as oportunidades amorosas são ridiculamente escassas. Primeiro porque, no campo do jogo, da sedução, eles são completos azarados. Nunca se encontrarão flertando com ninguém, porque classificam-se como uma nova espécie de seres: os incompreendidos. E os incompreendidos acreditam fielmente que jamais alguém conseguirá corresponder quaisquer de suas intenções; que menosprezarão seu estado de espírito e rirão de suas pretensões como indivíduo. Que, devido ao acúmulo de uma sabedoria frívola e pontual, poucos conseguirão de fato compreendê-lo em sua totalidade e, com uma aversão natural ao estranho, ao incomum, se afastarão dele. E, melancolicamente, entendem o peso de suas personalidades, o fardo de singularizar-se. A outra parte, portanto, não tem quaisquer meios de adentrar os sentimentos de indivíduos como esses, afinal eles são impenetráveis e imutáveis. O azar tanto os feriu que a espera pela sorte se silenciou na mais ensurdecedora desesperança.

Levanto-me, finalmente, do banco duro de madeira e, a passos vagarosos, arrasto o meu corpo rumo à praça de alimentação. Analiso a lotação de pessoas, as quais tomaram majoritariamente os assentos, e encontro uma mesa com duas cadeiras vazias no extremo da praça, encostada a uma estrutura com plantas no interior. Embora eu esteja num lugar para alimentação, não sinto fome alguma. Dirijo-me imediatamente para a mesa.

Já sentado, começo a divagar o olhar, quando encontro o casal de antes, acompanhado por duas pessoas. Agora observo com mais clareza os detalhes físicos da garota. É exatamente o tipo em que sempre sonhei namorar. De repente, um amargor toma conta do meu peito. É a maldita invejinha. O terrível desejo de sucumbir à normalidade, que nem mesmo tenho direito! Sim, mesmo a trivialidade fora removida de mim, pois quando mais se tenta obter o normal, mais anormal se é. Às vezes, tenho alguns impulsos extremamente sexuais. Não no sentido criminal; mas no desespero de minha solidão. Visualizo aquele corpo nu; e inferno! Fico terrivelmente abalado! Ó incompreensão! Por que se apoderou de mim tão cruelmente? Por que obriga-me ser humilhado por tais desejos? Subjugado por minhas próprias necessidades? Quero chorar, mas contenho-me vilmente. Eles sorriem à distância. Parecem se divertir. Começo a imaginar o que estaria tornando o dia deles tão maravilhoso. Trago o meu olhar para minha companheira invisível e encaro a cadeira vazia. O rosto se enrijece, mas sucumbe pela tristeza e desmonta-se em sofrimento. Lembro-me de minhas antigas fantasias. Ah, o quão agridoce soam neste exato momento! Nesta época, eu ainda sonhava com o caloroso dia de ser amado, administrando um emaranhado de situações amorosas e literariamente descrevendo-as! E, repentinamente, o vazio arrancou este direito de mim! Tamanha injustiça privar um ser da luz e lançá-lo às trevas! Ao perder a capacidade de amar, estaria eu sendo privado de uma virtude sublime ou curado de uma doença? E se o amor é, de fato, uma doença, curar-se dela não deveria nos tornar mais felizes? Por que eu não me sinto feliz? Por que eu não estou rindo como aquele casal?

Aperto os punhos. Levo novamente o olhar para os dois casais, mas é difícil ver direito quando as lágrimas embaçam sua visão. Desta vez, fixo-me no homem jovial que acompanha a linda loira de meus mais encravados desejos. O que ele tem mas eu não? Talvez seja bem apresentado, física e visualmente falando, pelo menos. Ou quiçá é um gênio! Como eu poderia avaliá-lo de longe? Poderá ter a personalidade mais adorável de todas! E isto a tenha conquistado. Pode ser o filho da puta dos filhos das putas — e isso a tenha conquistado. Há mesmo a possibilidade de serem irmãos! Mas que relacionamento doentio de irmãos os fariam se beijar? Por Deus! Faça essa pressão sufocante no centro de meu peito passar! Gostaria de fugir. Levantar-se desta mesinha abandonada e correr no limite do aguentar. Encher os meus pulmões de trabalho e desaparecer. Num salto, ergo-me; entretanto não pretendo correr. Caminho entre as mesas e aproximo-me de um dos quiosques de comida. Peço um milkshake. "Como?", replica a atendente ao não me ouvir, nitidamente apavorada com minha face desconsolada. Minha garganta havia secado e encolhido, surpreendi por ter conseguido dizer: "Um milkshake."

"De que sabor?"

"Tem de ovomaltine?"

"Tem, sim."

"Pode ser ele."

E espero ao lado, no balcão. Fito novamente os dois, esquecendo-me dos outros. O grupo se levanta e eu me sobressalto. Dou uma espiada pelo ombro e vejo o milkshake de ovomaltine pronto sobre o balcão de mármore. Apanho-o rapidamente e começo a seguir os casais.

Do que adianta segui-los, afinal de contas? Nada estará reservado para mim no final desta caminhada senão a mais mortal das vergonhas! Corarei de tanta depravação. Nem mesmo amigo posso ser deles. Não tenho a capacidade social de me aproximar, não sem me parecer com um voyeur desprezível. Não são para isso que existem os encontros casuais? Para lembrá-lo de que a vida está constantemente oprimindo-o com a incapacidade de agir? Jogando contra você a verdade brutal de que não há salvação amorosa para a sua alma?

Acompanho-os até a entrada de uma livraria. Estaco diante de alguns livros em oferta. Tenho uma súbita admiração. Haviam entrado num dos únicos recintos culturais de um shopping, além do cinema. Mas, com a admiração, também veio — como sempre — a decepção. Tenho muito disso. Como se, em alguns momentos, todo interesse pelo conhecimento e sabedoria fossem superficiais e somente uma tendência pela pseudo-intelectualidade. Como se, ao entrar num ambiente de relevância cultural e espantar-se com obras literárias, fosse a mais falsa das emoções. A mais teatral e soberba das surpresas. É quase como se a alegria, o entusiasmo, exibisse a interpretação involuntária de uma sátira para com o genuíno saber. Quem pode ficar alegre com o abraço doloroso da existência? Quem pode se encantar com o sofrer eterno da compreensão?

Senti asco de mim mesmo, pois outrora eu era exatamente o tipo que desprezo hoje.

Viro-me e desço as escadas rolantes. Estou indo embora.

Um toque no ombro me desperta. Seria possível? Enorme coincidência? Encontrarei o amor de minha vida? Giro o corpo e encaro aquela na qual havia chamado minha atenção. Em menos de dois segundos, meu olhar brilhantemente úmido seca e a realidade se apresenta novamente. Uma senhora de uns cinquenta anos de idade segura uma carteira. Estende-a até mim e fala:

"Tudo bom? Você deixou cair quando tava descendo a escada."

"O-obrigado, moça", nunca pensei que um agradecimento pudesse ser tão pesado.

Chego ao térreo e em disparada marcho em direção à porta automática. Os olhos lacrimejantes. Uma dor radiante na cabeça. Acabe com isso, Universo. Faça-me uma máquina! Eu imploro! Tire-me os sentimentos e minha humanidade! Já não tenho mais forças para suportar essa viciosidade esmagadora de anseios afetivos! É maligna! É inumana! Compreendi que em nenhuma circunstância serei amado ou poderei amar, de fato! Sou o espécime do ódio e da apatia! O ser da incompreensão e da inveja!

Devastado, corro pela cidade. Divido com as pernas um pouco da dor do meu coração e ruas adentro sou engolido. Até que o cansaço suspende o funcionamento de meu corpo e paro. Curvo-me, respiro profundamente e varro o olhar pelo lugar. Há uma parada próxima. Não adianta querer correr vinte quilômetros quando sou capaz de suportar apenas um. É um alívio inimaginável sentar-se depois de um longo percurso. Espero vinte minutos. Por fim, o ônibus chega.

Cumprimento o motorista, preparo o dinheiro da passagem e, enquanto o entrego para o cobrador, observo o fundo do ônibus, à procura de um assento. Assombro ao ver o notório casal do shopping sentado em dois dos três últimos bancos do ônibus. E sabia imediatamente que teria de me sentar próximo a eles ou terminar de foder minhas pernas em pé. Atravessei a catraca e senti uma forte taquicardia. É claro que não me reconheceram. Não poderiam, afinal. Apenas eu havia os vistos.
Preparo para me sentar e, então, troco olhares angustiantes com a garota. Neste meio tempo, quase que paraliso. O coração apunhala-me o peito! Seria capaz de um ser tão belo entender a insanidade de minha melancolia infindável e, com isso, conceder a libertação de uma crença corrompida? Onde estaria, então, o amor de minha vida? No inferno da natureza humana? No purgatório de minha ignorância?

Universo! Deus! Eu dou minha profundidade! Dou tudo que tenho! Mas me faça normal! Tire-me o desgosto de pensar, a pretensão de conhecer, a mania de questionar! Dê-me amor e alegria! Dê-me prazer e energia! Compartilhe comigo a mais trivial das emoções! A mais superficial das ambições!

Em silêncio permaneço. Um caos de pensamentos. Olhadelas em direção do casal. Dou sinal. A minha parada é a próxima. O dia já se tornou noite. E esta obscura noite causa-me calafrios.
Sozinho detenho-me numa cidade vazia e gélida. A lua, como um daqueles letreiros brilhantes e pomposos, manifesta-se grandiosamente no céu degradê. É tão imensa!

Ilumine-me, lua, e faz do meu caminho para casa um rastro seguro de luz. Ofereça-me o abraço que mais nenhuma alma neste mundo poderá e mostre-me como um astro sem luz e pequeno que nem você pode brilhar nessa escuridão absoluta e ter uma importância tão majestosamente fundamental para a vida de outros!

Pois hoje eu não quero me esconder nas trevas, mas cintilar até o fim do meu brilho.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Está no inferno

Encontra-se no inferno aquele que tanto buscou o portão abrasivo de um anseio cósmico e eterno. Desceu ao submundo e concedeu às chamas o prazer que tanto o seduziu nesta desesperança. Permitiu-se queimar a todo o deleite do verdadeiro amar, pois com fogo precisava abrasar a animalesca vontade de se exterminar. E das cinzas tornara-se um amontoado de nada, para da alvorada, então, criar a mais desejada, enigmática e espontânea das escapadas.